O diagnóstico comum sobre a adoção de inteligência artificial na saúde aponta para a resistência do setor: hospitais conservadores, médicos desconfiados e a sensibilidade dos dados. No entanto, Rafael Kellerman, sócio da Apus Capital, oferece uma perspectiva menos confortável. "Sabe o que falta, fundamentalmente? Muitas vezes o que falta são bons produtos", afirma Kellerman, provocando o debate. A visão parte de um executivo com investimentos significativos no cruzamento entre saúde e tecnologia, através da Apus Capital, holding de Maurício Barbosa, cofundador da Bionexo. O portfólio inclui Pipo Saúde, Flow Clinic, Imunosafe e Folks, além de participação na 645 Ventures. Para Kellerman, a qualidade de um produto de saúde vai além do resultado final, abrangendo toda a jornada do usuário. Soluções difíceis de implementar, de treinar profissionais e pouco intuitivas, segundo ele, criam barreiras significativas.

Qualidade e Necessidade: Quebrando Barreiras

Luiz Antonio Nasi, superintendente médico do Hospital Moinhos de Vento, reconhece a resistência, mas a atribui ao medo da gestão hospitalar. Kellerman concorda que a régua para a saúde é mais alta, comparável à aviação e finanças, onde um erro mínimo pode ter consequências graves. Contudo, ele defende que a própria necessidade do produto é o fator que quebra essa resistência. Um exemplo citado é a preocupação de hospitais com médicos utilizando o ChatGPT para analisar prontuários, evidenciando a utilidade e a superioridade da ferramenta em sumarizar dados e gerar insights. Essa eficácia força a incorporação de modelos como os da Anthropic e OpenAI nas próprias soluções oferecidas pelo setor.

O Efeito "De Fora para Dentro"

A estratégia de "de fora para dentro", onde um produto conquista usuários individualmente até se tornar indispensável para a corporação, é apontada como um caminho eficaz. Kellerman compara essa tática ao sucesso do Slack, que se popularizou entre equipes antes de ser adotado em larga escala pelas empresas. Quando uma ferramenta se torna essencial para a prática diária, a implantação deixa de ser um obstáculo. No Brasil, a Voa Health exemplifica essa abordagem, focando inicialmente em médicos individuais e expandindo para contratos com operadoras de saúde, com a expectativa de que este segmento represente uma parcela significativa de sua receita futura. Essa base de usuários conquistada individualmente abriu portas para as instituições.

Acelerando a Inovação em Healthtechs

O ritmo de adoção e crescimento das healthtechs também mudou drasticamente. Historicamente, empresas de saúde digital levavam uma década para alcançar US$ 100 milhões em receita, com as mais rápidas necessitando de cinco anos. Atualmente, healthtechs nativas de IA estão atingindo essa marca em cerca de 18 meses. Exemplos como a OpenEvidence, que saltou de menos de US$ 8 milhões para mais de US$ 150 milhões em receita anualizada em um ano, e a Abridge, que superou US$ 100 milhões em receita recorrente em pouco mais de um ano, valendo agora US$ 5,3 bilhões, ilustram essa aceleração sem precedentes no setor. Kellerman enfatiza que essa inovação disruptiva nunca foi vista antes na área da saúde.

A Proximidade com a Realidade do Paciente

Para Kellerman, a construção de produtos de saúde eficazes exige imersão. "A gente tem que cruzar a rua, ir lá no Mãe de Deus, passar uns dias no Moinhos de Vento, na Santa Casa de Porto Alegre", defende. A inteligência artificial, segundo ele, tem o potencial de habilitar a criação de produtos excelentes e fáceis de incorporar, desde que os desenvolvedores compreendam profundamente as dores e os desafios enfrentados pelos profissionais e pacientes. A proximidade com a realidade clínica é, portanto, um componente essencial para o desenvolvimento de soluções verdadeiramente inovadoras e úteis no setor de saúde.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Startups