O BTG Pactual realizou recentemente um roadshow na Europa que confirmou a cautela persistente do capital internacional em relação ao varejo brasileiro. Segundo relatório da instituição, as preocupações com a taxa básica de juros (Selic), a inflação e as incertezas geopolíticas dominam as conversas, levando a um posicionamento extremamente baixo dos fundos estrangeiros no setor. A tese central dos investidores agora é identificar empresas capazes de crescer de forma independente, descolando-se dos ciclos macroeconômicos que historicamente pressionam as margens e o poder de compra das famílias.

A busca por resiliência operacional

O cenário de juros elevados por um período prolongado impõe uma barreira clara para o varejo de massa. De acordo com a equipe de análise liderada por Luiz Guanais, o interesse dos investidores não desapareceu, mas a alocação de capital tornou-se seletiva. O foco mudou radicalmente: em vez de apostar na recuperação cíclica do consumo, o mercado busca companhias que apresentam vantagens competitivas estruturais ou modelos de negócio menos sensíveis à alavancagem financeira.

Essa mudança de paradigma reflete um movimento de proteção contra a volatilidade. Questões regulatórias, como a possível redução da jornada de trabalho, surgiram nas discussões, mas foram secundárias diante da necessidade de garantir que o lucro líquido das empresas possa ser preservado mesmo em um ambiente de crédito restritivo. O varejo alimentar, por exemplo, viu sua relevância cair drasticamente no radar dos investidores europeus por ser considerado excessivamente dependente da renda disponível do consumidor.

O protagonismo do Mercado Livre e a estratégia de crédito

O Mercado Livre (MELI34) consolidou-se como o nome mais discutido durante o roadshow. O otimismo quanto à trajetória do volume bruto de mercadorias (GMV) permanece sólido, mas o debate sobre rentabilidade ganhou novos contornos. Investidores questionam a duração do ciclo de investimentos da empresa diante da ofensiva de competidores como Amazon e Shopee, que intensificaram a pressão sobre os níveis de serviço no Brasil.

Além disso, o negócio de crédito, operado pelo Mercado Pago, tornou-se um ponto de atenção crítica. Embora a qualidade dos ativos seja considerada saudável pelos analistas do BTG Pactual, o crescimento acelerado da carteira exige provisões que pressionam as margens no curto prazo. A sustentabilidade dessa operação é vista como um dos pilares para a manutenção da liderança da companhia no e-commerce regional.

Saúde e vestuário sob nova ótica

No setor farmacêutico, a RD Saúde (RADL3) atrai interesse pelo potencial do mercado de medicamentos para obesidade e diabetes, os GLP-1. O desafio para os investidores é mensurar a capacidade da rede em capturar essa demanda diante da concorrência e da pressão nos preços dos genéricos. Já a Lojas Renner (LREN3) voltou ao radar com foco na execução operacional e na eficácia de seu centro de distribuição, em um momento em que a tributação sobre importações, como a Shein, altera a dinâmica competitiva do vestuário.

O futuro do varejo corporativo e os riscos remanescentes

A Smart Fit (SMFT3) também aparece com relevância, especialmente pela sua plataforma TotalPass. A discussão gira em torno da rentabilidade de longo prazo frente ao concorrente Wellhub. O BTG Pactual sustenta uma visão positiva, apostando na escala e na maturidade do negócio para estabilizar as margens. O que permanece como incógnita é a velocidade com que essas empresas conseguirão converter seus diferenciais em resultados consistentes caso o cenário de juros no Brasil permaneça em patamares restritivos por mais tempo do que o esperado pelo mercado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times