O ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araqchi, utilizou a reunião ministerial do Brics em Nova Délhi, nesta quinta-feira, para exigir uma postura pública do bloco contra os Estados Unidos e Israel. Em um movimento que coloca à prova a coesão do grupo expandido, Araqchi solicitou que os Estados-membros condenem formalmente o que classificou como violações do direito internacional e agressões ilegais contra o território iraniano.
A exigência, realizada em um fórum que opera estritamente pelo princípio do consenso, ocorre em um momento de alta volatilidade geopolítica e econômica. Segundo reportagem da Reuters, a presença de rivais regionais, como os Emirados Árabes Unidos, na mesma mesa que o Irã, torna praticamente inviável a articulação de uma declaração conjunta sobre o conflito iniciado em 28 de fevereiro, expondo as profundas divergências estratégicas que acompanham a recente ampliação do bloco.
O desafio da governança no bloco expandido
A expansão do Brics, que recentemente incorporou nações como Irã, Emirados Árabes Unidos, Egito e Etiópia, buscava aumentar o peso global da coalizão, mas trouxe consigo um ônus operacional significativo. O grupo, que historicamente priorizava a cooperação econômica e a reforma das instituições financeiras globais, encontra-se agora diante de uma complexidade diplomática que seus mecanismos de decisão não foram desenhados para gerir.
A leitura analítica é que a inclusão de atores com interesses de segurança diametralmente opostos transforma o Brics em um espelho das tensões do Oriente Médio. Enquanto a diplomacia indiana, na presidência do bloco em 2026, tenta manter um tom de sobriedade e foco na estabilidade, a pressão iraniana força os membros a escolherem lados, algo que o formato do Brics sempre evitou para preservar sua influência como bloco de contrapeso ao Ocidente.
Mecanismos de pressão e a crise no Estreito de Ormuz
O cenário de crise é agravado pelo impacto direto no Estreito de Ormuz, via crucial para o fluxo de cerca de 20% do petróleo mundial. A instabilidade na região, marcada por ataques a navios e restrições de tráfego, elevou os preços da energia e reacendeu temores de uma desaceleração econômica global, afetando diretamente economias importadoras como a Índia.
O mecanismo de incentivos aqui é claro: a instabilidade energética funciona como uma ferramenta de negociação geopolítica. Ao mesmo tempo em que o Irã busca isolar Israel e os EUA no cenário internacional via Brics, a própria interrupção do tráfego marítimo coloca o país em rota de colisão com os interesses econômicos dos demais membros do bloco, criando um paradoxo onde a solidariedade política é minada pela necessidade de sobrevivência econômica dos parceiros.
Tensões entre stakeholders e o peso das sanções
Para reguladores e mercados, a situação sinaliza um período prolongado de incerteza. A Índia, ao enfatizar a importância da liberdade de navegação e criticar o uso de sanções unilaterais, tenta equilibrar a necessidade de manter o Brics como uma alternativa viável ao G7, enquanto protege sua própria estabilidade financeira contra a inflação importada da crise energética.
A tensão multi-stakeholder é evidente: de um lado, nações que buscam no Brics uma alternativa ao sistema financeiro liderado pelo dólar; de outro, países que não podem se permitir o custo político e econômico de endossar as ações militares iranianas. O paralelo com crises anteriores sugere que, sem um mecanismo de mediação interna, o bloco corre o risco de paralisia decisória.
Perspectivas e o futuro do consenso
O que permanece incerto é se o Brics conseguirá manter sua relevância como ator geopolítico ou se o custo de sua expansão será a perda de agilidade. A capacidade da presidência indiana de conduzir o grupo através deste impasse será um teste fundamental para a longevidade do novo desenho do bloco.
Observar a evolução das declarações ministeriais nos próximos meses será essencial para entender se o Brics se tornará um foro de alinhamento político ou se permanecerá como uma plataforma de cooperação pragmática e limitada, onde as divisões nacionais prevalecem sobre a retórica de unidade global.
A dinâmica entre a pressão por posicionamentos ideológicos e a necessidade de estabilidade econômica continuará a definir as fronteiras do que é possível dentro do Brics. A resolução — ou a falta dela — sobre a condenação exigida pelo Irã servirá como um termômetro para a coesão das potências emergentes na próxima década.
Com reportagem de InfoMoney
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