A exposição "Iris Van Herpen: Sculpting the Senses" abre no Brooklyn Museum, em Nova York, apresentando uma retrospectiva da carreira da designer holandesa. Em cartaz de 16 de maio até 6 de dezembro de 2026, a mostra reunirá mais de 140 criações de alta costura, estabelecendo um diálogo entre o vestuário e disciplinas como a ciência, a biologia e a tecnologia de ponta.
A curadoria organiza o trabalho de Van Herpen através de temas naturais, partindo da água como origem da vida e expandindo-se para estruturas microscópicas e macroscópicas. Segundo a designer, a essência de sua prática reside na conexão profunda com o ambiente, tratando o corpo como um elemento integrado a uma ecologia complexa de minerais, ar e som.
A natureza como laboratório de design
O processo criativo de Van Herpen desafia as convenções tradicionais da moda ao priorizar o material sobre a silhueta. Antes de definir qualquer forma, a designer investiga comportamentos físicos e propriedades de novos tecidos, permitindo que a estrutura da peça surja organicamente a partir dessa experimentação. Essa abordagem transforma o ateliê em um verdadeiro laboratório de pesquisa, onde a costura é tratada como um exercício de observação científica.
A exposição contextualiza essas criações ao lado de espécimes naturais, como fósseis e corais, além de objetos de design e arte contemporânea. Ao exibir o processo de trabalho, que inclui modelos físicos e estudos microscópicos, a mostra revela que o design de Van Herpen é, na prática, uma forma de traduzir fenômenos biológicos para o espaço tridimensional, tratando a moda como uma extensão da própria natureza.
O papel da tecnologia na alta costura
A intersecção entre o artesanato tradicional e as ferramentas digitais é um dos pontos centrais da análise técnica da obra. Van Herpen utiliza softwares para traduzir desenhos manuais em padrões complexos, ajustando superfícies e volumes com precisão matemática. Longe de substituir o toque humano, a tecnologia atua como um amplificador da sensibilidade do artesão, permitindo a execução de formas que seriam impossíveis por técnicas manuais isoladas.
Esse fluxo de trabalho entre o "cursor e a mão" é apresentado como um método de exploração de novas linguagens visuais. A designer descreve o trabalho manual como um estado meditativo, onde o tempo parece desacelerar, conferindo às peças uma disciplina que equilibra a precisão do design computacional com a fluidez da alta costura clássica.
Percepção e a arquitetura do sonho
A mostra também explora como estados alterados de consciência e a percepção sensorial influenciam o design. Van Herpen utiliza o sonho lúcido e a sinestesia como ferramentas para mapear padrões que, posteriormente, são transpostos para o tecido. Esse processo confere às suas peças uma qualidade imaterial, onde a estrutura da roupa sugere movimento e transformação, como se as peças estivessem crescendo sobre o corpo.
O uso de soundscapes imersivos, desenvolvidos por colaboradores, reforça essa intenção, transformando a experiência de visitação em uma imersão sensorial. O design, sob essa perspectiva, deixa de ser apenas uma questão estética para se tornar uma ferramenta de exploração sobre como percebemos o mundo ao nosso redor.
Perspectivas sobre o futuro da moda
O legado que a exposição projeta levanta questões sobre o papel da moda em uma era de rápida evolução tecnológica. Ao integrar a biologia e a computação, Van Herpen sugere que o vestuário pode funcionar como uma interface entre o indivíduo e o campo mais amplo do meio ambiente. O desafio para o setor permanece em como escalar esse nível de rigor artesanal e inovação tecnológica sem perder a essência da experiência humana.
Os próximos passos da designer, observados através desta retrospectiva, indicam uma continuidade na exploração de materiais sustentáveis e novas formas de fabricação. O que se observa é a consolidação de uma linguagem onde a moda não é apenas um adorno, mas um campo de investigação sobre a interdependência de todos os sistemas vivos.
O trabalho de Van Herpen convida o público a repensar a relação entre tecnologia e natureza, sugerindo que o futuro da criação reside na capacidade de integrar o rigor da máquina com a sensibilidade do toque humano em um diálogo ininterrupto.
Com reportagem de Designboom
Source · Designboom





