As ações da C&A Brasil (CEAB3) registraram alta expressiva no Ibovespa nesta quarta-feira (24), reagindo à análise do Itaú BBA, que classificou a varejista como “irracionalmente barata”. O banco manteve a recomendação de compra e estabeleceu preço-alvo de R$ 20, consolidando o papel como sua principal aposta no setor de consumo discricionário da América Latina.

O movimento reflete o descompasso entre a precificação atual e os fundamentos operacionais da companhia. Segundo a análise do banco, o mercado acionário brasileiro tem operado sob forte influência de fatores técnicos e volatilidade de curto prazo, o que acaba negligenciando a capacidade de geração de valor da empresa em um cenário macroeconômico ainda incerto.

Perspectiva de valuation e mercado

A tese do Itaú BBA sustenta que o desconto de cerca de 35% em relação à Lojas Renner (LREN3) carece de justificativa fundamental. Enquanto a Renner é frequentemente vista como referência de eficiência no setor, o banco aponta que a C&A demonstrou uma recuperação operacional consistente após os percalços observados no final de 2025.

Atualmente, a varejista negocia a 5,6 vezes o lucro projetado para 2026, com rendimento de fluxo de caixa livre para o acionista (FCFE) estimado em 14%. O banco admite que a pressão vendedora do acionista controlador, que detém 30% da companhia, atua como um fator técnico de contenção, mas argumenta que o valuation atual compensa os riscos associados à liquidez do papel.

Recuperação operacional e produtividade

A melhora na execução é o motor central dessa revisão de expectativas. Após um quarto trimestre de 2025 desafiador, a empresa retomou ganhos de produtividade, reduzindo a diferença de performance por loja em relação à concorrência. A estratégia de abandonar o segmento de eletrônicos, focando em vestuário, permitiu uma otimização do capital de giro.

Esse ajuste operacional elevou a conversão de EBITDA em caixa para patamares superiores a 100% desde o início de 2025. Com a margem bruta sendo beneficiada por um cenário cambial mais favorável e a expectativa de que as vendas em mesmas lojas (SSS) se mantenham estáveis, o BBA projeta que o mercado subestimou o potencial de receita para o segundo semestre.

Impactos regulatórios e operacionais

O banco também avaliou os riscos de mudanças na jornada de trabalho, especificamente a transição do modelo 6x1 para 5x2. A estimativa é de um impacto financeiro anual inferior a R$ 30 milhões, o que representaria cerca de 2% do EBITDA projetado para 2026. A administração da varejista planeja mitigar esse custo por meio de realocação de pessoal e ganhos em produtividade.

Para as lojas de menor porte, que concentram 25% da rede, o efeito é mais direto, mas a empresa acredita que a redução no absenteísmo e na rotatividade de funcionários funcionará como um contrapeso natural. Essa resiliência operacional é vista como um diferencial competitivo em um setor de varejo que enfrenta margens apertadas e custos de pessoal crescentes.

Desafios e cenário prospectivo

A incerteza sobre a trajetória dos juros e o consumo das famílias continua sendo o principal pano de fundo para o setor. Embora a C&A tenha apresentado uma trajetória de recuperação, a sustentabilidade dessa expansão de margens depende diretamente da disciplina na execução e da manutenção do controle de custos operacionais.

O mercado aguarda agora a divulgação dos resultados do segundo trimestre para validar se a tendência de alta na produtividade se confirmará. A questão que permanece é se o otimismo do sell-side será acompanhado por um fluxo de investidores institucionais que, até o momento, priorizam a liquidez em detrimento de teses de valor.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney