O recente e expressivo ingresso de capital estrangeiro na Bolsa brasileira reacendeu o debate sobre o potencial de fluxo para a B3. Após um movimento que ganhou força com a melhora da percepção sobre os ativos brasileiros e foi intensificado pelo chamado “Flávio Day” — quando investidores estrangeiros aportaram cerca de R$ 10 bilhões em um único pregão —, analistas veem espaço relevante para novas entradas de recursos.

Um dos principais argumentos que sustentam essa visão é o baixo posicionamento atual dos investidores globais em ações brasileiras. Segundo análise do Itaú BBA, o Brasil responde atualmente por cerca de 4% do índice MSCI Emerging Markets, um patamar inferior à sua média histórica de 5,6%. Uma eventual volta a esse patamar poderia representar uma entrada adicional de aproximadamente R$ 123 bilhões na Bolsa.

Reprecificação de ativos impulsionada pelo exterior

A conta apresentada pelo Itaú BBA dimensiona o potencial do fluxo estrangeiro. Pelas estimativas do banco, cada aumento de 1 ponto percentual na participação do Brasil no MSCI Emerging Markets equivale a cerca de R$ 79,3 bilhões em recursos direcionados para o mercado acionário brasileiro. O exercício do Itaú BBA parte de um cenário de normalização das alocações tanto de investidores estrangeiros quanto de investidores domésticos. Nesse caso, o potencial total de entrada de recursos na Bolsa alcançaria R$ 270,2 bilhões.

Desses R$ 270,2 bilhões, o banco estima que cerca de 45% viriam de investidores estrangeiros, o que totalizaria aproximadamente R$ 122 bilhões. Os 55% restantes seriam provenientes de investidores locais, em um movimento que o banco espera que ocorra em um segundo momento. Na visão dos estrategistas, os estrangeiros tendem a liderar esse processo de reprecificação dos ativos brasileiros, pois o capital externo costuma reagir mais rapidamente a mudanças de cenário, especialmente quando há percepção de melhora relativa dos fundamentos econômicos e das perspectivas para os mercados emergentes.

A vez dos investidores locais

O Itaú BBA destaca que a participação local na Bolsa pode aumentar à medida que a trajetória de queda dos juros avance, tornando aplicações de renda fixa relativamente menos atrativas. Atualmente, os fundos de ações representam apenas 7,6% do patrimônio total da indústria de fundos no Brasil. Isso sugere que ainda existe espaço para uma recomposição gradual da exposição dos investidores locais ao mercado acionário.

A sensibilidade calculada pelo Itaú BBA mostra a dimensão desse potencial: cada aumento de 1 ponto percentual na alocação dos investidores domésticos em ações representaria um fluxo adicional de aproximadamente R$ 113,2 bilhões para a Bolsa brasileira. Esse movimento, no entanto, tende a ser mais gradual, acompanhando a melhora das condições financeiras e a consolidação da queda dos juros.

Sinais concretos e debate sobre intensidade

O mercado já vem observando sinais concretos dessa retomada do interesse estrangeiro. O recente fluxo registrado na B3, incluindo o aporte bilionário observado no “Flávio Day”, reforçou a percepção de que investidores globais começaram a aumentar sua exposição aos ativos brasileiros. Ainda assim, os números sugerem que a movimentação observada até agora pode representar apenas uma parcela do potencial projetado pelos estrategistas.

As estimativas do Itaú BBA indicam que uma normalização das posições ainda abriria espaço para cifras muito superiores às registradas recentemente. O debate entre analistas não está mais centrado na possibilidade de entrada de recursos, mas na intensidade e na velocidade com que esse processo pode ocorrer. Para os estrangeiros, o principal vetor está relacionado ao reposicionamento do Brasil dentro dos portfólios globais voltados para mercados emergentes.

O que observar daqui para frente

O potencial de entrada de R$ 270,2 bilhões, com R$ 122 bilhões vindos de estrangeiros, ajuda a explicar por que muitos estrategistas acreditam que o fluxo atual pode estar apenas no início de um ciclo mais longo de recomposição de posições no mercado acionário brasileiro. A dúvida que paira é a velocidade e a consistência desse fluxo, que dependerá da conjuntura econômica global e das reformas internas que o país conseguir implementar.

A evolução da taxa de juros e a percepção de risco-país seguirão como fatores cruciais para a atração e retenção de capital estrangeiro. A volatilidade inerente aos mercados emergentes, somada a fatores geopolíticos, pode gerar flutuações no fluxo, mas a tendência de longo prazo parece positiva, segundo o banco. A recomposição da carteira de fundos de ações por investidores locais também será um ponto de atenção.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney