As ações da Localiza (RENT3) voltaram ao radar dos investidores institucionais após o Itaú BBA classificar o papel como “barato”, com base em um valuation que projeta um P/L de 9 vezes para 2027. Segundo relatório da equipe liderada por Daniel Gasparete, o preço atual, girando em torno de R$ 40, oferece um ponto de entrada atrativo, representando um desconto de aproximadamente 10% frente à média histórica da companhia.
O banco fixou o preço-alvo para o final deste ano em R$ 54, o que sugere um potencial de valorização de 31,8% em relação ao fechamento recente. Contudo, a recomendação de compra vem acompanhada de uma ressalva estratégica: os analistas sugerem uma saída ou redução de posição próximo aos R$ 50, refletindo uma convicção menos robusta sobre a trajetória de lucros da locadora no médio prazo.
O peso do cenário macro na tese de investimento
A tese do Itaú BBA para a Localiza é intrinsecamente ligada à sensibilidade do papel ao humor do mercado, caracterizada por um beta elevado. Em momentos de melhora na percepção de risco sobre a economia brasileira, a empresa tende a capturar fluxos de capital com maior intensidade que seus pares. O otimismo de curto prazo se sustenta na expectativa de um segundo trimestre forte, com projeção de lucro próximo a R$ 1 bilhão e um volume de vendas de seminovos entre 90 mil e 95 mil unidades.
Entretanto, o horizonte de médio prazo exige cautela. O cenário de juros, com a Selic projetada em média de 13% para 2026, exerce pressão direta sobre as despesas financeiras e a dinâmica de depreciação da frota. A capacidade da Localiza em gerir esses custos, em um ambiente de concorrência acirrada e crédito mais restrito, será o fiel da balança para a manutenção dessas estimativas de lucro líquido, que o banco projeta em R$ 4,3 bilhões para 2026 e R$ 5 bilhões para 2027.
Mecanismos de pressão e o fator tributário
O desempenho operacional da companhia, medido pelo Ebitda, segue sob observação rigorosa. O Itaú BBA revisou sua projeção para o indicador em 4%, elevando-a para R$ 15,6 bilhões em 2026, mantendo a estimativa de R$ 16,2 bilhões para 2027. Este ajuste reflete a resiliência operacional da empresa, mas não ignora os riscos estruturais que pairam sobre o setor de locação e a indústria automotiva como um todo.
A reforma tributária aparece como o principal ponto de interrogação. A antecipação de seus impactos sobre o preço dos carros novos pode alterar significativamente a estrutura de custos de renovação da frota. Se o custo de aquisição de veículos subir, a pressão sobre a depreciação — um dos itens mais sensíveis no balanço de locadoras — tende a se intensificar, exigindo uma disciplina de capital ainda maior por parte da gestão.
Implicações para o setor e stakeholders
Para os investidores, a recomendação do Itaú BBA sublinha a importância de monitorar os próximos 30 a 90 dias como uma janela crítica de volatilidade. A correlação entre a disponibilidade de crédito para financiamento de veículos e o desempenho das ações da Localiza permanece alta. Qualquer sinal de deterioração nos indicadores econômicos brasileiros pode forçar uma revisão das teses de crescimento para o setor de locação, que depende de alavancagem operacional e financeira para manter suas margens.
Além dos acionistas, o setor automotivo observa a Localiza como um termômetro da demanda por veículos novos. A estratégia da empresa em relação ao desinvestimento de seminovos afeta diretamente a precificação de usados no mercado secundário, criando um efeito cascata que impacta desde montadoras até concessionárias multimarcas. A harmonia entre a oferta de crédito e o apetite do consumidor final será determinante para que a tese de “preço barato” se converta em valor real.
Perspectivas e o que observar
O que permanece incerto é a resiliência da margem diante de uma Selic persistentemente elevada. O mercado aguarda as próximas decisões de política monetária para avaliar se a projeção de 13% para a taxa de juros será um teto ou um piso, o que alteraria drasticamente o custo de capital da companhia.
Os investidores devem observar atentamente a dinâmica de venda de seminovos nos próximos balanços trimestrais. Se o volume de vendas começar a desacelerar ou se os preços de revenda sofrerem pressão, a tese de valorização pode enfrentar obstáculos, independentemente do valuation atual parecer descontado. A cautela, portanto, parece ser o guia recomendado para navegar nesta transição.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





