O cenário econômico brasileiro atual é marcado por uma clara divisão setorial, impulsionada pela política monetária restritiva do Banco Central. Segundo o relatório "Orange Book" do Itaú, a persistência de juros em patamares elevados está forçando a economia a operar em duas velocidades distintas, onde negócios dependentes de crédito sofrem com a contração de investimentos e a necessidade de focar em corte de custos e automação. Em contrapartida, setores com forte vocação exportadora ou com demanda resiliente em serviços, como óleo e gás, mineração, turismo e farmácias, encontram um ambiente mais favorável para prosperar.

O Efeito Dupla Velocidade da Selic

A análise do Itaú, baseada em dados coletados entre agosto e setembro, detalha como a taxa Selic, ao encarecer o crédito e o financiamento de longo prazo, impacta desproporcionalmente os setores de capital intensivo. Empresas nos ramos de construção civil, maquinário e bens de capital, que historicamente dependem de empréstimos para expandir suas operações, veem seus planos de investimento freados. A falta de crédito acessível limita a capacidade de expansão, forçando um foco maior na eficiência operacional e na preservação de caixa. Em contraste, segmentos com giro mais rápido, como turismo, farmácias, educação e alimentação, demonstram maior resiliência. Essas atividades, que não demandam grandes aportes de crédito para escoar sua oferta, beneficiam-se da força do mercado de trabalho e da capacidade de consumo das famílias, mantendo-se relativamente imunes ao choque de juros que paralisa outras áreas da economia.

Gargalos Estruturais: Mão de Obra e Concorrência Chinesa

Além do impacto direto dos juros, o relatório aponta outros gargalos estruturais que afetam o desempenho empresarial. A escassez de mão de obra qualificada emerge como um problema significativo em 18 dos 34 subsetores analisados, com médias de nota 7 ou mais em uma escala de 0 a 10. Setores como mineração, materiais de construção, óleo e gás, imóveis (residenciais e comerciais) e hotelaria registram notas elevadas de escassez. A indústria de vestuário e o setor de aves e suínos lideram com notas máximas (10), indicando uma pressão considerável nos custos operacionais. Paralelamente, a concorrência crescente da indústria chinesa representa outro desafio. Produtos importados da China têm pressionado as margens da indústria nacional em segmentos como bens de capital, metalurgia, embalagens, cadeia automotiva, bens de consumo, eletrônicos e vestuário. Essa competição força as empresas a buscarem maior produtividade e eficiência para manterem a competitividade, muitas vezes optando pela substituição de produção local por importações mais baratas, o que, por sua vez, atua como uma força desinflacionária, mas comprime o caixa das empresas brasileiras.

Setores em Alerta e Outros em Alta

O agronegócio, apesar de suas perspectivas favoráveis a médio prazo, enfrenta um cenário de custos elevados, incertezas climáticas e dificuldade em repassar preços. O crédito caro tem inibido investimentos na expansão de safras, colocando o setor em uma posição defensiva. Produtores de defensivos e fertilizantes sentem o impacto da queda nas commodities e do risco climático, enquanto os frigoríficos aguardam a retomada de exportações para a China. Em contrapartida, setores menos sensíveis ao crédito e mais atrelados ao consumo direto de serviços mostram um desempenho robusto. Farmácias, impulsionadas por medicamentos de emagrecimento, e o setor de turismo, hotéis e restaurantes, em franca recuperação pós-pandemia com o retorno da demanda corporativa e internacional, operam em alta. A educação mantém sua resiliência por depender mais da renda familiar, embora o investimento em expansão também seja travado pelo custo do capital.

Perguntas em Aberto e o Futuro da Economia

A dinâmica de "duas velocidades" imposta pela alta da Selic levanta questões sobre a sustentabilidade desse modelo a longo prazo. Enquanto setores exportadores e de serviços mostram resiliência, a fragilidade dos negócios dependentes de crédito pode gerar um efeito cascata na economia. A persistência da escassez de mão de obra qualificada e a intensificação da concorrência chinesa adicionam camadas de complexidade, exigindo estratégias de adaptação e inovação contínuas. A forma como a reforma tributária se desdobrará e o ritmo dos futuros cortes na taxa de juros serão cruciais para determinar se essa divisão setorial se aprofundará ou se um cenário de convergência econômica se tornará possível.

O relatório do Itaú oferece um panorama detalhado dos desafios e oportunidades que moldam o cenário empresarial brasileiro. A capacidade de adaptação dos setores mais expostos aos juros altos e à concorrência externa, assim como a sustentação da demanda nos segmentos de serviços, serão determinantes para a trajetória econômica do país nos próximos meses. A leitura atenta dessas dinâmicas setoriais é fundamental para compreender as nuances do ambiente de negócios no Brasil.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney