O Itaú Unibanco deu um passo audacioso em sua jornada de transformação digital ao anunciar a aquisição da NeoSpace, uma promissora startup brasileira especializada em modelos fundacionais de inteligência artificial. O negócio, avaliado em quase R$ 3 bilhões, representa um investimento significativo com o objetivo de transformar o maior banco da América Latina em uma espécie de "ChatGPT financeiro", capaz de oferecer interações mais ricas e assertivas com seus clientes.

Esta estratégia não é inédita para o Itaú. Em 2019, o banco adquiriu a Zup por R$ 500 milhões, também com o intuito de impulsionar sua transformação digital. Curiosamente, ambas as startups foram fundadas pelo mesmo empreendedor, Bruno Pierobon, um programador autodidata que, após a venda da Zup, dedicou-se a construir a NeoSpace em 2023 com Felipe Almeida e Gustavo Debs. O foco da NeoSpace, segundo Pierobon, sempre foi a construção de modelos funcionais e o entendimento profundo da matemática e da arquitetura desses cérebros artificiais, reunindo uma equipe de 80 pesquisadores altamente especializados em IA.

O motor por trás da estratégia

A aquisição da NeoSpace, que já havia recebido um investimento minoritário do Itaú de US$ 15 milhões em janeiro de 2025, foi realizada a um valuation aproximadamente seis vezes maior, refletindo o valor estratégico que o banco atribui à tecnologia de IA de ponta. O CIO do Itaú, Ricardo Guerra, explicou que a ideia é aproveitar o vasto volume de dados e o conhecimento centenário do banco sobre produtos financeiros para criar um assistente conversacional superior aos modelos generalistas. Enquanto o ChatGPT e o Gemini utilizam informações da internet, o Itaú possui dados detalhados sobre os hábitos, gastos, investimentos e planejamentos financeiros de seus clientes, o que permite uma personalização e assertividade sem precedentes.

O futuro da interação bancária

O banco vislumbra um futuro onde a interação com o cliente transcende os menus de aplicativos tradicionais. A meta é que os clientes possam conversar com o banco, obtendo respostas e soluções personalizadas para suas necessidades financeiras. O "ia.i", um motor de interação já lançado no aplicativo do Itaú, é um primeiro passo nessa direção, mas ainda está em desenvolvimento, aprendendo com as interações e sendo alimentado com o conhecimento interno do banco, muitas vezes armazenado na mente de seus funcionários. A NeoSpace chega para acelerar esse processo, trazendo expertise em redes neurais e a capacidade de aprimorar modelos de crédito e prevenção de fraudes.

Consolidação de conhecimento e talento

A decisão de comprar a NeoSpace, em vez de manter uma relação de cliente, surgiu quando o Itaú percebeu que dominar essa tecnologia seria fundamental para o seu core business. A dependência de terceiros para uma capacidade tão estratégica foi considerada um risco. Pierobon, por sua vez, optou pela venda ao Itaú, citando o conhecimento prévio do banco, o alinhamento com a visão de IA de fronteira e a oportunidade de impactar milhões de pessoas sem a complexidade de uma expansão internacional. Ele destacou que o ambiente do Itaú permite que ele continue fazendo o que gosta: pesquisar e desenvolver IA.

Perguntas em aberto e o caminho adiante

O sucesso dessa empreitada dependerá da capacidade do Itaú em integrar efetivamente a tecnologia da NeoSpace e transformar o conhecimento interno em modelos de IA robustos e escaláveis. A competição por talentos em IA é acirrada globalmente, e a aquisição da NeoSpace pode ser um diferencial para atrair e reter os melhores profissionais. Resta saber como essa nova capacidade de IA moldará a experiência do cliente a longo prazo e se o Itaú conseguirá consolidar sua posição como líder em inovação financeira impulsionada por inteligência artificial.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Brasil Journal Tech