O Itaú Unibanco finalizou a alocação dos R$ 8,4 bilhões que arrematou no primeiro leilão do Eco Invest, o programa do governo federal desenhado para atrair capital privado para a transição verde. Os recursos foram direcionados a 16 operações de crédito para grandes companhias, como Sabesp, Suzano, Volkswagen e Grupo Boticário.
Desde seu lançamento, o programa é acompanhado por uma dúvida central: ele de fato destrava investimentos que não ocorreriam sem o subsídio ou apenas barateia o crédito para projetos que os bancos financiariam de qualquer maneira? Para o Itaú, a resposta está no cenário macroeconômico. Com a Selic em patamares elevados e a percepção de risco corporativo em alta, a linha subsidiada se tornou um gatilho para tirar projetos da gaveta, segundo reportagem do Capital Reset.
O motor da Selic alta
O argumento do banco, apresentado por Luciana Nicola, diretora de relações institucionais e sustentabilidade, é que muitos desses projetos já estavam mapeados, mas paralisados pelo alto custo do crédito convencional. “Quando vem uma linha como o Eco Invest, isso destrava e acelera esse pipeline”, afirmou a executiva à publicação. Operações de saneamento da Sabesp e da Aegea, por exemplo, não sairiam do papel neste momento sem o incentivo, segundo ela.
A mecânica do programa explica seu apelo. O Eco Invest oferece aos bancos recursos do Tesouro a um custo baixo (1% ao ano), exigindo que eles alavanquem esse montante com captações próprias, majoritariamente no exterior. No caso do Itaú, R$ 1,35 bilhão do Tesouro foram combinados com R$ 7,05 bilhões captados junto a investidores internacionais, como multilaterais e agências de fomento.
Uma política de Estado?
O custo final do empréstimo para a empresa, no entanto, não é fixo. Ele depende de uma equação que envolve o custo de funding do banco e, crucialmente, a análise de risco de crédito do tomador. Na prática, empresas com menor risco de crédito acabam se beneficiando de um subsídio maior na taxa final, uma dinâmica inerente à estrutura do programa.
Outro ponto de interrogação é a perenidade do Eco Invest diante de uma eventual troca de governo. Na avaliação de Nicola, o fato de o programa ter nascido no Ministério da Fazenda, com uma lógica econômica para atrair capital estrangeiro, o blinda de instabilidades políticas. A estrutura seria mais uma política de Estado do que de governo, alinhada a instrumentos internacionais como a taxonomia sustentável, que lhe serviu de base.
Para o Itaú, a atração de capital externo e a execução de projetos com impacto socioambiental comprovado geram fatos concretos que tornariam seu desmonte politicamente custoso. A dúvida sobre a real adicionalidade dos projetos persiste, mas, no curto prazo, o cenário de juros altos parece dar ao programa um claro senso de urgência e oportunidade.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Capital Reset




