Uma Vitória de Mais de Três Anos

A partir de 23 de outubro, a Unidade de Terapia Intensiva (UVI) móvel de Jaca — cidade encravada nos Pirineus aragoneses, na Espanha — passou a operar 24 horas por dia, todos os dias da semana, com médico e equipe completa. O anúncio foi feito em 1º de outubro e encerrou uma batalha que durou mais de três anos, mobilizando uma comunidade inteira em defesa de um direito essencial: o acesso à saúde de qualidade.

A Longa Espera por um Médico

A disputa começou em maio de 2023, quando um novo contrato de transporte sanitário urgente na região de Aragão suprimiu as guardas localizadas de médicos nas UVIs durante a noite, fins de semana e feriados. O veículo, antes uma UVI completa com médico, enfermeiro e condutor, passou a operar como SVAE (Serviço de Suporte Vital Avançado de Enfermagem), com a enfermagem liderando o atendimento na ausência do médico. A justificativa oficial era a falta de profissionais e a necessidade de otimizar recursos. Contudo, para os habitantes de Jaca e de outras comarcas afetadas, como Barbastro, Calatayud e Alcañiz, a medida representava um retrocesso inaceitável, comprometendo a capacidade de resposta em emergências críticas.

O Gatilho da Mobilização

Um incidente específico, relatado pelo então prefeito de Jaca, Carlos Serrano, serviu como catalisador para a mobilização. Um turista francês de 64 anos sofreu uma parada cardíaca em um fim de semana. Atendido pela equipe de enfermagem sem médico presente, ele não pôde ser intubado no local e, segundo o relato, faleceu na ambulância. A necessidade de acionar um médico do centro de saúde e a UME (Unidade Médica de Emergência) de Sabiñánigo, além da demora nos procedimentos subsequentes, expuseram a fragilidade do serviço. Embora não se possa afirmar categoricamente que a presença de um médico teria salvado a vida do turista, o episódio evidenciou as limitações do atendimento sem um especialista, que poderia, no mínimo, iniciar os procedimentos de reanimação e estabilização necessários.

A Força da Comunidade

A plataforma "UVI móvel Jaca — la necesitamos!" ("precisamos dela!") emergiu como um movimento unificador. Composta por vizinhos, aposentados, famílias e trabalhadores locais, a organização não se limitou a reclamações formais. Seus membros organizaram palestras, concentrações e manifestações, compareceram às Cortes de Aragão (o parlamento regional), buscaram o Justicia de Aragón (ouvidor regional) e dialogaram com todos os partidos políticos. A luta transcendia as cores partidárias, focada na necessidade real da população. A pressão foi contínua, com denúncias de sindicatos sobre a cobertura de plantões em Jaca por UVIs de Huesca e acusações de motivações políticas — que a plataforma sempre negou, reafirmando o caráter comunitário da causa.

Conquistas Graduais e a Vitória Final

A batalha não foi vencida de uma vez. Em abril de 2025, a UVI recuperou o médico 24 horas apenas nos fins de semana e feriados, deixando as noites de segunda a quinta-feira ainda sob o regime de enfermagem sem médico. Em fevereiro de 2026, uma nova queixa formal foi apresentada quando o serviço de emergências 061 retirou o médico de um plantão de domingo para cobrir uma baixa em outra localidade. A persistência, contudo, surtiu efeito. Em 1º de outubro de 2026, foi anunciado o desfecho: a partir de 23 de outubro, a UVI móvel de Jaca operaria com médico 24 horas por dia, todos os dias. A celebração da plataforma, com um comunicado de "¡Lo hemos conseguido!" ("Conseguimos!"), reflete a satisfação de uma comunidade que lutou por mais de três anos por um serviço essencial.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Xataka