Imagine um espaço onde a luz deixa de ser um instrumento de revelação para se tornar o próprio objeto de observação. É nessa fronteira entre o visível e o inefável que James Turrell tem operado desde a década de 1960, desafiando a forma como nossos olhos e mentes processam a realidade. A partir de 28 de maio, a galeria Gagosian em Hong Kong inaugura "Lifting the Veil", uma mostra que reúne hologramas, gravuras e três novas peças da série Glassworks, oferecendo ao público asiático um raro vislumbre de uma prática que, embora técnica em sua execução, é profundamente filosófica em sua essência.
Para uma metrópole definida pela intensidade luminosa e pela verticalidade, como é o caso de Hong Kong, a presença de Turrell não é apenas um evento estético, mas um contraponto necessário. Enquanto a cidade pulsa em um ritmo frenético de neon e vidro, as obras de Turrell propõem um silêncio visual, um convite para que o espectador cesse a busca pelo objeto e se concentre no fenômeno da luz em si. É, como o próprio artista descreve, o uso da luz como a revelação absoluta, despida de qualquer função utilitária.
A busca pela essência da luz
Desde os seus primeiros experimentos em um estúdio em Santa Monica, Turrell buscou desconstruir a relação convencional que temos com o que vemos. Ao longo de cinco décadas, o artista refinou uma linguagem que transita entre a escala íntima de suas projeções iniciais e a ambição geológica de seu trabalho mais notável: o Roden Crater. Localizado no deserto do Arizona, este observatório construído dentro de um cone vulcânico é o ápice de sua carreira, um lugar onde a luz, o tempo e a paisagem se encontram em uma escala que desafia qualquer precedente na história da arte.
A exposição na Gagosian funciona como uma ponte para esse monumental projeto. Através de plantas, fotografias e modelos, o público de Hong Kong tem acesso a um registro de algo que ainda está em construção, uma obra que se mantém em constante devir. Essa documentação confere uma urgência à mostra, lembrando-nos de que a arte de Turrell é, em última análise, um exercício de paciência e de longo prazo, algo raro em um mundo que exige consumo imediato.
A precisão dos Glassworks
O coração da exposição reside nos três novos Glassworks: Resolute (2025), Patmos (2024) e Of One Mind (2024). Instaladas em câmaras dedicadas dentro da galeria, essas obras utilizam LEDs controlados por computador por trás de aberturas geométricas — uma elipse, um diamante e um retângulo. O resultado é uma progressão de cores que pulsam suavemente, criando uma ilusão de profundidade e planicidade que altera a percepção do espectador conforme ele dedica tempo ao observá-las.
Essas peças são, talvez, o ponto mais acessível da trajetória de Turrell. Elas não exigem conhecimento prévio ou uma imersão teórica; pedem apenas atenção. Ao transitar entre essas câmaras, o visitante é guiado por um processo de calibração perceptual, onde o olhar é levado a estados de consciência cada vez mais refinados, distanciando-se da agitação externa da Pedder Building.
Ressonância cultural e o vazio
Os hologramas presentes na mostra, técnica explorada pelo artista há quatro décadas, ganham um novo contorno no contexto asiático. Em uma cultura que historicamente valoriza a vacuidade e o limiar entre a presença e a ausência, as formas efêmeras de Turrell dialogam com tradições estéticas locais de maneira singular. Elas parecem flutuar, desafiando a solidez do plano da imagem, e forçam o espectador a se mover para entender a profundidade do que está diante de si.
Acompanhando estas obras, as gravuras relacionadas ao Aten Reign, a instalação que transformou o Guggenheim de Nova York em 2013, solidificam a posição de Turrell como um artista capaz de capturar a atenção de massas. O que antes era visto como uma prática de nicho, voltada para a percepção, provou ser capaz de parar o tráfego humano, transformando o museu em um espaço de contemplação coletiva.
O horizonte de possibilidades
O que permanece incerto após o fechamento da exposição em agosto é como essa experiência de "levantar o véu" — como sugere o título da mostra — ecoará na memória dos visitantes. Em um ambiente urbano que frequentemente nos cega pelo excesso de estímulos, as obras de Turrell atuam como um filtro, uma pausa necessária. A arquitetura de seus Skyspaces, documentada na mostra, sugere que o céu não é apenas um teto, mas uma matéria que podemos sentir.
Observar como o público responderá a essa proposta será o próximo passo. Será que a busca pela imaterialidade pode sobreviver ao ritmo de uma das cidades mais densas do mundo? Talvez a resposta não esteja na obra, mas no próprio ato de olhar para cima, na próxima vez que caminharmos por um corredor de vidro e aço, buscando o que a luz esconde.
O que acontece quando paramos de procurar o que a luz revela para, finalmente, começarmos a ver a luz que nos revela? Com reportagem de Hypebeast
Source · Hypebeast





