O Telescópio Espacial James Webb (JWST) detectou o que estava, até então, escondido à vista de todos: uma vasta população de estrelas pequenas e de baixa luminosidade em nove galáxias do universo primitivo. A descoberta, detalhada em um artigo na revista científica Nature Astronomy, sugere que as primeiras "cidades cósmicas" continham muito mais matéria estelar do que os modelos cosmológicos previam.

A reportagem, publicada pelo site espanhol El Confidencial, destaca que a luz ofuscante das estrelas gigantes e brilhantes mascarava a presença de suas irmãs menores. A consequência é um ajuste fundamental no censo cósmico: as galáxias primordiais eram, na verdade, significativamente mais massivas, forçando uma revisão em como entendemos a infância do universo.

Uma questão de perspectiva

Até agora, astrônomos estimavam a população estelar de uma galáxia distante analisando seu espectro de luz de forma integrada. O problema dessa abordagem é que as estrelas mais massivas, embora raras, são tão luminosas que dominam completamente o sinal, agindo como arranha-céus que impedem a visão dos edifícios menores de uma metrópole distante. A sensibilidade sem precedentes do JWST permitiu que a equipe, liderada por cientistas da Universidade de Leiden, na Holanda, finalmente distinguisse a luz fraca dessas estrelas menores.

O achado desafia uma premissa fundamental da astrofísica: a de que a proporção de estrelas de diferentes massas se mantém relativamente constante ao longo da história cósmica. Os novos dados indicam que, no universo primitivo, a receita para formar estrelas pode ter favorecido uma quantidade maior de astros pequenos do que se observa em galáxias maduras como a nossa Via Láctea.

Implicações em cascata

O impacto da descoberta é direto e quantificável. Em um dos casos analisados, uma galáxia formada menos de 1,5 bilhão de anos após o Big Bang pode abrigar até quatro vezes mais massa estelar do que se calculava. Essa discrepância não é um mero ajuste técnico; ela altera a compreensão sobre a densidade e a velocidade com que as primeiras grandes estruturas do cosmos se formaram.

As implicações, contudo, vão além do cálculo de massa galáctica. Como afirmaram os pesquisadores ao El Confidencial, a maior parte dos planetas conhecidos orbita estrelas pequenas e de longa vida. Se o universo primitivo produziu mais dessas estrelas do que se supunha, isso poderia significar que as condições para a formação de planetas surgiram mais cedo e em maior abundância do que os modelos atuais sugerem.

Este trabalho não fecha o capítulo, mas abre uma nova linha de investigação. A equipe agora planeja aplicar a mesma técnica de análise a galáxias ainda mais antigas, aproximando-se cada vez mais da aurora cósmica, quando as primeiras estrelas do universo começaram a brilhar.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · El Confidencial — Tech