Jamie Dimon, CEO do JPMorgan Chase, provocou um alerta silencioso nos mercados financeiros nesta semana ao mencionar que o otimismo atual com a inteligência artificial pode estar beirando a "exuberância excessiva". Em entrevista, o executivo destacou que os preços dos ativos de tecnologia, impulsionados pela infraestrutura necessária para a IA, parecem estar desconectados dos fundamentos econômicos básicos. A escolha das palavras evoca imediatamente o discurso de 1996 de Alan Greenspan, então presidente do Federal Reserve, que cunhou o termo "exuberância irracional" pouco antes da formação da bolha das empresas de internet, a bolha das pontocom.

Segundo reportagem da Fortune, o paralelo não é apenas retórico. Analistas indicam que o atual frenesi em torno da IA é, em termos macroeconômicos, cerca de 60% maior do que o ciclo de investimentos em tecnologia, mídia e telecomunicações da década de 90. Enquanto o mercado precifica um cenário de crescimento acelerado e ganhos de produtividade imediatos, a concentração de capital em um único setor levanta questões sobre a sustentabilidade do ritmo de gastos das gigantes de tecnologia.

O peso histórico da cautela

Quando Greenspan utilizou o termo em 1996, ele buscava entender como os formuladores de políticas poderiam identificar o momento em que a febre especulativa impulsionava ativos a níveis insustentáveis. Naquela época, o mercado reagiu com quedas, mas os preços continuaram subindo por anos antes do colapso. A lição de então, reforçada pelo Nobel Robert Shiller, é que bolhas são movidas por narrativas contagiantes que superam a racionalidade dos balanços financeiros.

O cenário atual, contudo, difere em componentes fundamentais. Nos anos 90, o boom tecnológico foi acompanhado por um ambiente de queda na dívida soberana e estabilidade geopolítica. Hoje, a euforia com a IA ocorre em um contexto de déficits fiscais crescentes, populações envelhecidas e tensões globais, criando um cenário que, segundo modelos do Deutsche Bank, assemelha-se mais aos choques da década de 1970 do que à prosperidade do fim do milênio.

A falha na proteção dos ativos

Um dos pontos críticos levantados pela análise é a quebra na eficácia dos ativos de refúgio. Durante crises anteriores, títulos do Tesouro, ouro e moedas fortes serviam como amortecedores para portfólios. No entanto, o histórico da década de 2020 mostra que esses ativos falharam em proteger os investidores durante episódios de volatilidade, como a pandemia e os choques tarifários recentes. Isso significa que, se a exuberância atual der lugar a uma correção acentuada, o mercado terá menos locais seguros para se esconder.

Além disso, o ritmo de investimento em data centers e semicondutores exige uma escala de receita futura que ainda não se materializou de forma clara. A dúvida que permanece é se os modelos de negócios de empresas de IA conseguirão justificar os trilhões de dólares em capex sem depender apenas da entrada de novos investidores dispostos a assumir o risco dos fundadores.

Implicações para o ecossistema

Para o investidor e para o ecossistema de inovação, o aviso de Dimon serve como um lembrete de que a tecnologia é real, mas o preço pago por ela pode não ser. A tensão entre o potencial de produtividade e a precificação de mercado é o desafio central desta década. Enquanto o otimismo foca no "melhor cenário" de adoção da IA, o mercado parece subestimar a possibilidade de um período prolongado de estagnação se os ganhos de eficiência não superarem os custos dos desafios demográficos e fiscais.

No Brasil, onde o mercado de capitais é sensível aos fluxos globais e ao apetite por risco em tecnologia, a cautela de Dimon ecoa como um sinal para a necessidade de maior rigor na análise de valor. A dependência de um único motor de crescimento torna o sistema mais suscetível a choques externos, exigindo que gestores de portfólio reavaliem a alocação em ativos que, até então, eram vistos como apostas certas.

O que observar a seguir

A incerteza reside na velocidade com que a IA conseguirá, de fato, impulsionar o PIB real. Se a tecnologia entregar ganhos de produtividade consistentes, a exuberância atual pode ser apenas um prólogo. Se, contudo, as barreiras macroeconômicas prevalecerem, o ajuste poderá ser doloroso.

O monitoramento dos próximos resultados financeiros das empresas de infraestrutura de IA será o termômetro para saber se estamos diante de uma revolução produtiva ou de um ciclo especulativo clássico que ainda precisa encontrar seu limite.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune