O ano era 1979. Um convite inesperado para o escritório de Jérôme Lindon, uma figura lendária no cenário editorial francês, mudaria o curso da carreira de um jovem escritor. Era o início de uma relação de duas décadas, pontuada por afinidade e desentendimentos criativos, que o escritor Jean Echenoz imortalizou em seu livro de memórias "Jérôme Lindon". A obra, que narra a simbiose entre autor e editor, serve de ponto de partida para um ensaio do tradutor Mark Polizzotti, que acrescenta suas próprias experiências para pintar um retrato vívido desse elo fundamental da criação literária.
Lindon, à frente da Editions de Minuit, era conhecido por sua exigência e por um faro apurado para o que havia de mais inovador na literatura. Foi ele quem apostou no primeiro romance de Echenoz, um manuscrito rejeitado por quase todos. Essa decisão estabeleceu um padrão de lealdade e confiança, mas, como Echenoz descreve com afeto e ironia, também abriu espaço para as fricções e "psicoses menores" que florescem quando duas mentes se dedicam à arte da linguagem.
A Perspectiva do Tradutor
No seu ensaio, Polizzotti relata sua própria experiência com Lindon, que espelha a de Echenoz. Em 1984, como um editor iniciante na Random House, ele foi recebido pelo editor francês com a mesma mistura de cortesia e intimidação. Lindon, alto e acerbo, sentava-se atrás de sua mesa, enquanto Polizzotti se sentia pequeno em uma cadeira desconfortável. O encontro, no entanto, foi marcante. Lindon tratou o jovem editor como um par e fez uma recomendação generosa: a aquisição dos direitos em inglês de "O Amante", de Marguerite Duras. A aposta, contudo, não se concretizou na Random House, que considerou o livro um nicho. Meses depois, a obra foi publicada pela Pantheon, tornando-se um best-seller mundial.
Essa anedota ilustra a visão de Lindon e a dinâmica do mercado. Enquanto grandes casas buscavam apostas de alto retorno, Lindon investia em obras de valor literário intrínseco, mesmo que fora do radar comercial. A experiência de Polizzotti com Duras, embora frustrante na época, serviu como um aprendizado valioso sobre a importância de defender obras com potencial, mesmo que não imediatamente óbvio.
A Luta por Echenoz em Inglês
Paralelamente, outro título da Editions de Minuit, "Cherokee", de Jean Echenoz, chegou às mãos de Polizzotti. Devorando o romance, ele e seu colega Jonathan Galassi tentaram, sem sucesso, convencer a gestão da Random House a publicá-lo. Um dos editores, Jason Epstein, rejeitou a obra com desdém por nomes "impronunciáveis". Para Echenoz, porém, o sucesso comercial era secundário. "Tenho um editor e é Jérôme Lindon. O resto é sem importância", declarou na época, encapsulando a essência de sua lealdade.
Felizmente, a história de "Cherokee" em inglês teve um desfecho mais feliz. Ao saber que os direitos do livro haviam sido adquiridos pela editora independente David R. Godine, Polizzotti se ofereceu como tradutor. Godine aceitou, e o livro foi publicado em 1987. Aquele foi o início de uma longa e frutífera colaboração entre Polizzotti e Echenoz, que resultou na tradução de dez de seus livros, incluindo o próprio "Jérôme Lindon".
Lealdade Acima do Sucesso
Um episódio final ilustra a natureza peculiar da parceria. Em 1990, Echenoz e Polizzotti, junto com outros quatro escritores, escreveram um romance colaborativo, "Semaines de Suzanne". Echenoz levou a obra a Lindon, que, com sua franqueza característica, a considerou "sem valor" e "muito ruim". Ainda assim, decidiu publicá-la para evitar que caísse nas mãos de outro editor. O livro vendeu pouco, mas para Polizzotti, foi seu primeiro título publicado sob o selo Minuit, um feito de imenso valor pessoal.
A história de Jean Echenoz e Jérôme Lindon, vista pelas lentes de Echenoz em seu livro e de Polizzotti em seu ensaio, é um testemunho da relação entre criador e guardião da obra. Ela revela como um editor pode ser um parceiro, crítico e incentivador, moldando carreiras e o próprio panorama literário. A lealdade de Lindon, mesmo diante do fracasso comercial, sublinha um compromisso com a visão artística — um ideal que, no mercado atual, parece cada vez mais raro e precioso.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Lit Hub





