A cena é quase um cliché espanhol: o dinheiro ganho com suor, seja nas pistas ou em qualquer outra labuta, deve ser transformado em tijolos. Uma filosofia que atravessa gerações, desde o êxodo rural dos anos 60 até o boom imobiliário posterior. A ideia de que "ladrillo" (tijolo) é um investimento seguro, uma fonte inesgotável de valor, parece ter se solidificado no imaginário coletivo. Mas, para muitos, a realidade é um pesadelo de desocupações e aluguéis impagáveis.
Neste cenário, a fala de Jorge Lorenzo, tricampeão mundial de MotoGP e agora investidor imobiliário, ecoa com uma dissonância perturbadora. Há dois anos, em uma entrevista, ele revelou sua estratégia financeira ideal: comprar dez apartamentos e viver de aluguéis de 800 a 1.000 euros mensais, garantindo uma renda passiva para sempre. "Me arrepiento de no haber sabido eso y no haber invertido todo mi dinero en ladrillo", confessou, lamentando não ter aplicado toda a fortuna de sua carreira esportiva no mercado imobiliário.
A 'vaca leiteira' e a desconexão social
Para Lorenzo, os imóveis são "vacas leiteiras". A metáfora é clara: um ativo que produz renda constante, sem exigir muito em troca. "Siempre vas a tener a alguien que te dará 700 u 800 euros al mes", explicou, em referência a inquilinos que garantiriam seu sustento sem a necessidade de trabalhar. Essa visão, embora pragmática do ponto de vista do investidor, contrasta brutalmente com a crescente crise habitacional na Espanha. O país tem visto manifestações e acampamentos em praças públicas, como o da Puerta del Sol em Madrid, impulsionados por casos como o de uma senhora de 87 anos despejada por um fundo de investimento.
O mercado imobiliário espanhol: entre a especulação e a necessidade
A Espanha, historicamente, tem uma forte ligação cultural com a propriedade imobiliária. A posse de um imóvel é vista não apenas como um investimento, mas como um símbolo de estabilidade e status. Contudo, a crise de 2008, que viu os preços despencarem, foi seguida por uma recuperação que, para muitos, se tornou inacessível. Fundos de investimento, muitas vezes apelidados de "fundos abutres", têm adquirido propriedades em larga escala, elevando os preços de aluguel e venda e intensificando a especulação. A declaração de Lorenzo, de que "lo más inteligente es comprar 10 pisos", embora possa ter sido feita com base em sua experiência pessoal e em um contexto de mercado diferente, soa como um eco distante para quem luta para pagar o aluguel ou para os jovens que descobrem que a única forma de ter uma casa é recebê-la de presente dos pais.
Implicações e o futuro da moradia
Lorenzo, que hoje gerencia seu patrimônio principalmente no setor imobiliário, inclusive fora da Espanha em locais como Suíça e Dubai, exemplifica um modelo de investimento que pode ser vantajoso para quem possui capital. No entanto, essa abordagem levanta questões importantes sobre a sustentabilidade do mercado imobiliário e seu impacto social. A facilidade com que ele descreve a aquisição de múltiplos imóveis ignora as barreiras de entrada para a maioria da população e as consequências da concentração de propriedades nas mãos de poucos. A busca por renda passiva através de imóveis, quando levada ao extremo, pode exacerbar a desigualdade e a dificuldade de acesso à moradia digna.
O debate sobre o direito à moradia na Espanha está longe de terminar. As reivindicações por maior proteção aos inquilinos, o freio à especulação e o acesso facilitado à compra de imóveis continuam no centro das discussões. A perspectiva de investidores como Jorge Lorenzo, embora legítima em seu contexto, serve como um lembrete da complexa teia de interesses e realidades que moldam o mercado habitacional, deixando no ar a pergunta: como equilibrar o investimento com a necessidade humana básica de um teto?
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





