Teresa e Aina Tejedor, de 28 e 24 anos, respectivamente, representam uma nova frente de atuação no setor agroalimentar espanhol. Atuando na empresa El Zagal, responsável pela produção da Sobrasada de Mallorca com selo de Indicação Geográfica Protegida (IGP) desde 1996, ambas defendem que o futuro das denominações de origem depende diretamente da capacidade de atrair talentos jovens através da modernização técnica.

Segundo reportagem da Forbes España, as profissionais, que ocupam cargos de técnica de qualidade e técnica de I+D+i, argumentam que o relevo geracional não deve ser visto como uma ruptura com o passado, mas como uma convergência. A tese central é que a preservação da autenticidade territorial exige, hoje, a aplicação de ferramentas digitais e processos de gestão rigorosos, garantindo que a tradição se mantenha competitiva em um mercado globalizado.

O papel da tecnologia na preservação

A modernização das estruturas de produção é apontada como a espinha dorsal para a continuidade dos selos IGP. A iniciativa da associação Origen España, que reúne diversos produtores, destaca que a introdução de sistemas de rastreabilidade, segurança alimentar e digitalização é o que permite que pequenas empresas familiares permaneçam viáveis. O objetivo é transformar a percepção do campo, afastando a imagem de um setor estagnado e aproximando-o de um ambiente de alta tecnologia.

A análise aqui é que a sobrevivência de produtos com denominação de origem protegida depende de uma narrativa que conecte o consumidor final ao valor do território. Para as novas gerações, explicar o diferencial de um produto protegido é tão importante quanto produzi-lo com excelência técnica, criando um ciclo de valor que justifica o investimento constante em inovação.

Desafios estruturais e burocráticos

O debate sobre o relevo geracional esbarra em barreiras administrativas que frequentemente desestimulam novos empreendedores. A necessidade de agilizar trâmites burocráticos é um consenso entre os membros da Origen España, que buscam junto às administrações públicas um ambiente regulatório menos oneroso. A complexidade do sistema atual atua, muitas vezes, como uma barreira de entrada que impede a renovação do quadro profissional no campo.

Além da burocracia, a formação especializada aparece como o mecanismo fundamental de retenção de talentos. Programas focados em gestão de empresas familiares e exportação são vistos como essenciais para que os jovens vejam o setor agroalimentar como uma carreira de longo prazo, com projeção profissional e reconhecimento social, e não apenas como uma sucessão compulsória de negócios familiares.

Implicações para o ecossistema

A tensão entre a manutenção da tradição e a necessidade de inovação é uma constante em setores regulados por indicações geográficas. Para reguladores e produtores, o desafio reside em equilibrar a rigidez dos cadernos de encargos — que protegem a tipicidade do produto — com a flexibilidade necessária para adotar novas tecnologias de produção e marketing. O paralelo com o agronegócio brasileiro, que também busca valorizar a origem e a sustentabilidade de seus produtos, é evidente.

O movimento sugere que a sustentabilidade de longo prazo das IGPs depende de uma abordagem multi-stakeholder, onde o diálogo com o setor público é tão vital quanto o investimento em P&D. A valorização do trabalho jovem não é apenas uma questão de sucessão familiar, mas uma estratégia de sobrevivência econômica que exige incentivos reais e adaptados à realidade da indústria moderna.

Perspectivas de continuidade

O que permanece incerto é a velocidade com que as administrações públicas conseguirão adaptar seus sistemas de apoio à demanda por digitalização e desburocratização. O sucesso dessa transição geracional dependerá da capacidade do setor em provar que a inovação não dilui a identidade do produto, mas a protege contra a obsolescência.

Observar como essas iniciativas de comunicação e formação se traduzirão em números de novos produtores nos próximos anos será o principal termômetro. A questão central é se o modelo de colaboração proposto pela Origen España conseguirá ser escalável o suficiente para enfrentar as pressões de mercado que ameaçam as pequenas produções tradicionais em toda a Europa.

O futuro das denominações de origem parece depender menos da resistência ao novo e mais da capacidade de integrar a precisão técnica aos métodos ancestrais. A transição, ainda em curso, desenha um novo perfil para o produtor rural, que atua simultaneamente como guardião da memória e gestor de tecnologia. Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España