O JP Morgan elevou as recomendações para as ações da Direcional (DIRR3) e Cury (CURY3) para a categoria overweight, equivalente a uma recomendação de compra, conforme relatório recente. A análise destaca uma clara divergência de performance esperada entre as incorporadoras focadas em habitação popular e aquelas expostas aos segmentos de média e alta renda. Simultaneamente, o banco rebaixou a MRV (MRVE3) para neutra, mantendo inalteradas as posições para Tenda (TEND3), Cyrela (CYRE3) e Eztec (EZTC3).

A tese central do banco para essa movimentação reflete o atual cenário macroeconômico brasileiro, marcado por taxas de juros elevadas por um período prolongado. Segundo o relatório, essa conjuntura favorece as empresas de baixa renda, que apresentam múltiplos de preço sobre lucro (P/L) considerados atrativos pelo mercado, girando em torno de 6,5 vezes para 2026. A estratégia de alocação privilegia companhias que demonstram capacidade de repasse de preços e eficiência operacional em um ambiente de custo de capital pressionado.

Otimismo na habitação popular

A Tenda consolidou-se como a principal escolha do banco, com um potencial de valorização projetado em cerca de 54,8%. O JP Morgan justifica essa confiança na capacidade da construtora de aumentar seu preço médio de venda acima da inflação setorial, medida pelo INCC. Além disso, a subsidiária Alea é vista como um ativo de valor relevante, apesar da percepção de parte do mercado de que a operação ainda seria deficitária.

No caso da Direcional, o upgrade para compra baseia-se na expansão do banco de terrenos em Belo Horizonte e na parceria estratégica com a Moura Dubeux para o Nordeste. Essas iniciativas possuem potencial para adicionar significativamente ao Valor Geral de Vendas (VGV) da companhia no médio prazo. Já a Cury recebeu recomendação positiva após seus resultados recentes reduzirem a percepção de risco quanto a novas revisões negativas de margem causadas pela inflação de custos.

Desafios operacionais e a pressão da MRV

O rebaixamento da MRV para neutra ocorre em meio à falta de visibilidade sobre os resultados da Resia, sua subsidiária nos Estados Unidos. O banco reduziu drasticamente as projeções de lucro por ação para os próximos dois anos, incorporando perdas relacionadas ao processo de desinvestimento da operação norte-americana. A sucessão de revisões negativas de lucros nos últimos anos tem pressionado a percepção dos investidores sobre a tese da empresa.

Embora a operação brasileira da MRV, focada no programa Minha Casa, Minha Vida, apresente evolução positiva, o banco aponta que a companhia é a mais alavancada sob cobertura. Essa característica a torna desproporcionalmente sensível à manutenção da taxa Selic em patamares elevados, limitando o potencial de valorização em comparação com seus pares diretos do setor de baixa renda.

O impacto dos juros na alta renda

Para as empresas de média e alta renda, como Cyrela e Eztec, o JP Morgan mantém uma visão cautelosa, refletida na redução dos preços-alvo. A análise indica que o custo do crédito elevado continua a pressionar a demanda por imóveis de maior valor, o que reduz a velocidade de vendas e limita os gatilhos para valorização das ações no curto prazo.

No caso específico da Eztec, o banco aponta desafios adicionais relacionados ao elevado estoque de imóveis concluídos e à dificuldade de monetização de ativos. Para os investidores, a leitura é de que o setor de alta renda exige um ciclo de queda de juros mais consistente para destravar o valor represado nos balanços das incorporadoras.

Perspectivas e o que observar

O cenário para o setor imobiliário brasileiro permanece condicionado à trajetória da política monetária. A capacidade das empresas de gerir seus estoques e controlar a alavancagem será o principal fator de diferenciação entre as companhias que conseguirão converter o otimismo analítico em resultados financeiros sólidos.

A observação dos próximos balanços trimestrais será fundamental para confirmar se a resiliência projetada para o segmento de baixa renda se sustentará diante da persistência dos juros altos. A incerteza sobre o desinvestimento da operação da MRV nos EUA continuará a ser um ponto de atenção para o mercado.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times