O presidente da Ericsson Espanha, Juan Olivera, apresentou nesta quarta-feira uma leitura alternativa sobre a posição da Europa no tabuleiro tecnológico global. Durante o DigitalES Summit, realizado em Madri, o executivo argumentou que o continente não deve pautar seu sucesso estritamente pela capitalização de mercado de suas gigantes digitais, mas sim por sua capacidade de sustentar a coesão social, as liberdades individuais e a solidez democrática.
Segundo reportagem da Forbes España, Olivera defende que, sob essa ótica, a Europa apresenta um desempenho superior ao que sugere a retórica convencional de atraso tecnológico. A tese editorial aqui é que o executivo busca reposicionar a narrativa europeia, afastando-a da síndrome de inferioridade em relação aos polos de inovação dos Estados Unidos e da China, ao valorizar o modelo de sociedade que o bloco construiu.
O dilema do modelo europeu de desenvolvimento
A argumentação de Olivera toca em um ponto central do debate sobre a soberania digital europeia. Historicamente, o continente tem sido criticado por sua dificuldade em criar empresas de tecnologia de escala global, comparadas às gigantes americanas. No entanto, o executivo da Ericsson sugere que essa "falha" pode ser interpretada como uma escolha deliberada de prioridades.
A leitura aqui é que, ao focar em direitos individuais e estabilidade, a Europa optou por um caminho onde a tecnologia serve ao cidadão, e não o inverso. O desafio, para o executivo, não é apenas o que pode ser feito tecnologicamente, mas o que deve ser feito para preservar o tecido social europeu. Essa perspectiva é um contraponto direto à lógica de "crescimento a qualquer custo" predominante em outros ecossistemas.
Conectividade como alicerce estratégico
No campo prático, Olivera identifica a conectividade como o único estrato da cadeia de valor tecnológica em que a Europa mantém uma liderança clara. Ele descreve essa infraestrutura não apenas como um suporte para comunicações, mas como um ativo crítico de segurança nacional e governança, essencial para a digitalização da sociedade.
O mecanismo de sucesso, segundo o executivo, não depende de inventar novas tecnologias disruptivas a todo momento, mas de "ensamblar" as peças existentes com foco em segurança e confiabilidade. Para a Ericsson, o gargalo atual da Europa é de execução, integração e investimento, e não de falta de capacidade intelectual ou infraestrutura básica.
Geopolítica e soberania regulatória
A intersecção entre tecnologia e geopolítica é, para Olivera, um fato incontornável. O debate sobre a infraestrutura crítica reflete a necessidade de soberania digital em um mundo fragmentado. O executivo reclama, portanto, de maior clareza e estabilidade regulatória para que as empresas europeias consigam operar com previsibilidade.
Essa demanda por estabilidade sugere que o setor privado europeu ainda enxerga o arcabouço regulatório do bloco como um fator de incerteza. Para os stakeholders, a mensagem é que a soberania europeia depende de uma infraestrutura robusta e de uma visão clara sobre o papel da tecnologia na manutenção das liberdades civis.
Desafios para a próxima década
O que permanece incerto é se o modelo de "sociedade melhor" defendido por Olivera será suficiente para manter o continente competitivo em áreas como inteligência artificial e computação em nuvem. A dependência tecnológica de potências externas ainda é um ponto de vulnerabilidade significativo para a autonomia do bloco.
O futuro exigirá que a Europa prove que seu modelo de governança tecnológica pode gerar escala sem sacrificar os valores que defende. Observar a capacidade do bloco em integrar suas redes de conectividade com as novas demandas de IA será o teste definitivo dessa tese.
A tecnologia, sob a ótica da Ericsson, não deve ser uma corrida para emular potências estrangeiras, mas um exercício de autoconhecimento institucional. O debate permanece aberto quanto aos custos dessa escolha.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Forbes España





