Entrar na exposição de Juanita McNeely no St. Louis Art Museum é uma experiência de visão em túnel. Um longo corredor, ladeado por mestres da pintura europeia, guia o olhar para uma única tela ao fundo: a dela. O retrato de uma mãe em trabalho de parto, envolta em campos brilhantes de verde-limão, ofusca os grandes nomes da história da arte. Caminhar em sua direção é ver passar, como um borrão, as obras canônicas que dialogam com a sua: um Picasso, um Derain, um Beckmann. McNeely, que morreu em 2023 aos 87 anos, cresceu admirando essas mesmas pinturas.

Sua obra, no entanto, demorou a ser reconhecida. O motivo, suspeita-se, é que ela estava à frente de seu tempo. Enquanto o discurso feminista dos anos 1970 se concentrava em empoderamento, independência e força, a experiência de McNeely — marcada por um diagnóstico de câncer na juventude — não se encaixava. Ela ousou pintar uma verdade mais complicada: a de que os corpos das mulheres, como todos os outros, são vulneráveis. Em um momento em que a luta era para negar a vulnerabilidade social imposta pelo patriarcado, a inevitabilidade da fragilidade física se perdeu no discurso.

A vulnerabilidade como ousadia

As figuras de McNeely raramente estão relaxadas. São esguias, calvas, vivazes e em constante batalha. Seus membros são frequentemente hiperextendidos, os dedos dos pés flexionados em tensão, como na tela Moving My Chair (2019). Pintada depois que um acidente a deixou em uma cadeira de rodas, a obra transforma o ato banal de trocar de assento em um esforço que exige consideração, tensão e força. Ela dominava as regras da anatomia apenas para quebrá-las, alongando membros e distorcendo formas para enfatizar não o que se vê, mas o que se sente.

Essa honestidade sobre a dor e o esforço é a espinha dorsal de seu trabalho. McNeely não pintava a mulher idealizada ou a heroína inabalável. Pintava a cuidadora exausta, a paciente em sofrimento, a mulher que equilibra prazer e dor em corpos que voam, caem ou flutuam em seus quadros. Suas telas perguntam, sem palavras, quem cuida de quem cuida. A resposta, em sua obra, parece ser a própria arte: um espaço para transmutar o infortúnio em beleza, sem jamais esconder a ferida.

O aborto em tons de joia

A peça mais emblemática dessa complexidade é, ironicamente, uma que não está na exposição de St. Louis. Is It Real? Yes It Is! (1969), sua obra-prima, retrata o aborto ilegal, perigoso e salvador que ela mesma vivenciou. A cena é descrita como intensa, mas não gráfica; brutal, mas pintada em tons de joia e com um vigor cintilante. A obra evoca menos a aparência do procedimento e mais a sua sensação, capturando a dualidade que o debate polarizado frequentemente apaga: a de que um aborto pode ser, simultaneamente, uma perda e um ganho, um alívio e um luto.

Em tempos de discursos unívocos sobre empoderamento, a arte de McNeely oferece um raro espaço para a ambiguidade. Suas figuras, suspensas entre andaimes e amarras, em êxtase ou agonia, não marcham para uma resolução clara. Elas existem em um ciclo de prazer e dor, força e fragilidade. Flutuam ou caem? São sustentadas ou contidas? A obra não oferece respostas fáceis, apenas um retrato visceral e incrivelmente relevante da condição humana, vista através de um corpo que ousou sentir e mostrar tudo.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews