O presidente do PSD e pré-candidato a vice-presidente, Gilberto Kassab, subiu o tom contra a estratégia política adotada pela família Bolsonaro em relação ao governo de Donald Trump. Em entrevista ao portal UOL, Kassab classificou como um erro estratégico a insistência do senador Flávio Bolsonaro e de seus aliados em exibir proximidade com a Casa Branca, especialmente diante das recentes medidas tarifárias impostas pelos Estados Unidos ao Brasil.
Para o dirigente partidário, a associação pública de Flávio Bolsonaro com as políticas comerciais americanas — que incluem uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros — tem gerado um desgaste significativo para o grupo político. Segundo Kassab, essa postura permitiu ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva retomar fôlego político ao adotar um discurso de defesa da soberania nacional, algo que, segundo o líder do PSD, tem ressonância direta na opinião pública brasileira.
O impacto das tarifas na disputa política
O cerne da crítica de Kassab reside na percepção de que a família Bolsonaro falhou ao tentar gerenciar a crise tarifária deflagrada em julho de 2025. O dirigente destacou que declarações de aliados, como o deputado federal Eduardo Bolsonaro, ao reivindicarem participação na adoção de medidas protecionistas americanas, foram interpretadas negativamente pelo eleitorado. Esse movimento, na visão de Kassab, acabou por isolar o grupo bolsonarista, que passou a ser visto como um facilitador de pressões externas contra o interesse nacional.
Ao se posicionar como interlocutores privilegiados de Washington, os membros da família Bolsonaro acabaram por assumir o ônus de decisões impopulares. Kassab argumenta que essa dinâmica de "proximidade e intimidade" com um governo que hostiliza o Brasil cria um cenário de vulnerabilidade eleitoral, transformando o que deveria ser um trunfo diplomático em um passivo político difícil de ser administrado perante o eleitorado conservador e nacionalista.
A falha na diplomacia paralela
Kassab foi particularmente crítico a respeito de uma carta enviada por Flávio Bolsonaro ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR). No documento, o senador solicitou o adiamento da aplicação das tarifas para o período pós-eleitoral de outubro. Para o líder do PSD, a iniciativa foi um erro de cálculo, sendo descrita por ele como uma tentativa de "pedir bênção" que reforça a imagem de submissão em vez de autonomia na condução das relações exteriores.
O mecanismo em jogo aqui é a deslegitimação da diplomacia paralela quando ela colide com a realidade econômica. Enquanto Flávio Bolsonaro sustenta que o governo Lula explora politicamente as tarifas, Kassab contrapõe que é a própria estratégia do clã Bolsonaro que fornece os argumentos necessários para que o Planalto centralize o debate na soberania. A tensão entre o alinhamento ideológico com Trump e a necessidade de proteger a economia doméstica evidencia os limites da influência que o grupo bolsonarista consegue exercer fora das fronteiras brasileiras.
Implicações para a oposição
A leitura de Kassab sugere que a oposição ao governo Lula está atravessando uma crise de identidade política. Ao tentar manter uma conexão direta com o governo Trump, a família Bolsonaro acaba por ignorar as nuances da política externa brasileira, onde o pragmatismo muitas vezes se sobrepõe ao alinhamento ideológico. Para os demais atores políticos, o movimento indica uma oportunidade de ocupar o espaço de uma oposição mais voltada aos interesses estruturais do país, sem o ônus das associações externas.
Para o ecossistema político, a questão central é se o desgaste apontado por Kassab será suficiente para alterar a correlação de forças nas próximas eleições. O episódio coloca em xeque a eficácia do modelo de diplomacia de rede, muito utilizado pelo bolsonarismo, quando confrontado com políticas protecionistas que afetam diretamente o setor produtivo nacional. A fragilidade dessa estratégia, ao ser exposta por um articulador experiente como Kassab, sinaliza uma mudança na forma como o centro político pretende desconstruir a narrativa de influência do clã.
Incertezas no horizonte diplomático
O que permanece em aberto é o real peso que a política comercial americana terá na decisão do eleitor brasileiro. Se, por um lado, o discurso de soberania de Lula ganha tração, por outro, a capacidade de Washington de manter a pressão tarifária dependerá de negociações complexas que extrapolam a influência de qualquer grupo político brasileiro. A dinâmica entre o que é retórica eleitoral e o que é política de estado continuará a ser o ponto de maior fricção.
Observar a evolução da relação entre o governo americano e a oposição brasileira nos próximos meses será fundamental para entender se a estratégia de Flávio Bolsonaro será corrigida ou se o desgaste será permanente. A política externa, antes vista como um terreno seguro para o bolsonarismo, tornou-se um campo minado que, ao que tudo indica, exigirá uma reavaliação tática profunda por parte do grupo caso pretendam manter sua relevância no cenário nacional.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Money Times





