A Kaszek, um dos nomes mais influentes do venture capital na América Latina, prepara seu retorno ao mercado de captação entre os próximos seis a doze meses. O objetivo é levantar recursos para seu sétimo fundo de early stage, movimento que sucede a fase final de alocação do Fundo VI, que captou US$ 540 milhões em 2023. A confirmação partiu de Hérnan Kazah, cofundador da gestora, em entrevista à Bloomberg Línea.

Atualmente, a Kaszek mantém um robusto colchão de liquidez de quase US$ 1 bilhão para novos investimentos. Este montante é composto por reservas remanescentes dos fundos IV, V e VI, além do Opportunity Fund 3, que concentra a estratégia de growth da casa e ainda possui cerca de 75% de seu capital disponível para aportes. A nova captação, portanto, foca exclusivamente em garantir fôlego para o estágio inicial de novos negócios.

Expansão para infraestrutura e energia

Embora a tese central da gestora permaneça inalterada — focada em bons fundadores e mercados endereçáveis na América Latina —, o radar de investimentos começa a incorporar setores de infraestrutura. Kazah aponta que energia e data centers entraram no escopo da Kaszek, impulsionados pela demanda exponencial por processamento de dados. A gestora, que historicamente evitou esses segmentos, reconhece agora a necessidade de capturar valor na cadeia de suporte à inteligência artificial.

O desafio, segundo Kazah, reside na elevada intensidade de capital exigida por esses projetos, o que contrasta com o perfil tradicional de software das startups latinas. Contudo, a urgência em resolver gargalos de infraestrutura na região torna esses ativos estratégicos. A mudança reflete uma visão de que a IA não se limita à camada de aplicações, mas exige uma base física robusta para sustentar o crescimento acelerado das empresas locais.

A busca pela defensibilidade na era da IA

Para o cofundador da Kaszek, a inteligência artificial representa a terceira grande disrupção tecnológica após a internet e os smartphones. A diferença, porém, reside na velocidade com que startups alcançam métricas de receita, encurtando ciclos que antes levavam anos. Esse cenário impõe um novo dilema: a sustentabilidade do negócio a longo prazo e a criação de vantagens competitivas duráveis, o conceito de moat popularizado por Warren Buffett.

Para evitar a obsolescência frente aos grandes modelos de linguagem, a gestora prioriza startups que combinam acesso a dados proprietários com integração profunda em fluxos de trabalho. A lógica é verticalizar a solução para que nenhum LLM global consiga replicar facilmente a especificidade do problema resolvido. Exemplos como a Enter, focada em direito do consumidor, ilustram essa tese de criar valor em nichos onde a profundidade local supera a escala global.

Ajustes na tese de investimento

O amadurecimento do ecossistema também alterou o perfil dos aportes. Em estágios iniciais, a Kaszek elevou o tíquete médio para valores entre US$ 3 milhões e US$ 10 milhões. Além disso, o perfil do fundador ideal mudou: a proficiência técnica em programação perdeu peso relativo para habilidades de vendas, recrutamento e visão estratégica. A capacidade de prever movimentos futuros do mercado tornou-se um requisito crítico para a seleção de novos portfólios.

Nessa linha, a gestora tem buscado empresas que facilitem a implementação de IA em ambientes corporativos complexos, como a Wonderful. O objetivo é mitigar o hiato entre a euforia tecnológica e a viabilidade operacional, garantindo que as soluções entreguem valor real aos clientes. A estratégia reforça a postura cautelosa da gestora em relação a mercados externos, preferindo manter o foco na execução regional em vez de abrir escritórios nos Estados Unidos.

O futuro da tese latino-americana

O cenário permanece aberto quanto à consolidação dessas novas verticais de infraestrutura. A capacidade da Kaszek em navegar por setores de alta demanda de capital, mantendo a disciplina de seus fundos de early stage, será um teste para a maturidade do ecossistema regional. A pergunta que resta é quais dessas empresas conseguirão, de fato, transpor a barreira dos cinco anos com modelos de negócio sustentáveis.

O mercado observará atentamente como a gestora equilibrará o apoio aos fundadores locais com as crescentes exigências de escala global. A trajetória da Kaszek, desde o Mercado Livre até o momento atual, sugere uma adaptação contínua aos ciclos de inovação, mas o sucesso futuro dependerá da capacidade de identificar quais modelos de IA resistirão à comoditização inevitável do setor.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Bloomberg Línea