O Brasil enfrenta um desafio estrutural que transcende a conjuntura política de curto prazo: o esgotamento dos motores de crescimento que sustentaram a economia entre 1950 e 1980. Segundo relatório divulgado pela Kinea, o país precisa de uma agenda profunda de reformas para elevar a produtividade e retomar o desenvolvimento sustentável. A gestora argumenta que, embora os entraves ao crescimento sejam conhecidos, falta ao sistema econômico a capacidade de transformar esforço em resultado.

A análise da Kinea organiza as propostas em torno de dez pilares, classificados como os "10 mandamentos da produtividade". O documento defende que a transição para um modelo baseado em inovação, eficiência e concorrência é a única saída para evitar a estagnação. Para a casa, o foco não deve ser a descoberta de novos caminhos, mas a execução de uma travessia que o país tem evitado há décadas, marcada por insegurança jurídica e políticas públicas ineficazes.

O peso da complexidade tributária

O primeiro pilar da Kinea é a simplificação do sistema tributário, apontado como o principal entrave à alocação eficiente de capital no Brasil. O relatório destaca que a estrutura atual distorce as decisões das empresas, fazendo com que investimentos e contratações sejam guiados por nuances fiscais em vez de critérios de produtividade. A implementação do IVA dual é vista como a reforma de produtividade mais urgente em curso.

Além da simplificação, a gestora propõe um escrutínio rigoroso sobre os benefícios fiscais e subsídios permanentes. A lógica é substituir a pergunta política sobre "quem perde o benefício" pela análise técnica sobre o retorno social entregue. Essa mudança de paradigma visa reduzir distorções que protegem setores ineficientes e drenam recursos que poderiam ser alocados em áreas de maior impacto econômico.

Abertura e infraestrutura como vetores

Outro ponto central da agenda é a abertura econômica, tratada pela Kinea não apenas como uma política comercial, mas como uma reforma de produtividade essencial. A exposição à competição global é apresentada como o principal estímulo para a inovação e a redução de custos de insumos, integrando o Brasil às cadeias globais de valor. A gestora enfatiza que a proteção excessiva da indústria nacional, um pilar do modelo anterior, tornou-se um obstáculo à competitividade.

No campo da infraestrutura, o diagnóstico é de que o país não alcançará novos patamares de eficiência com uma base logística obsoleta. O relatório defende o fortalecimento de concessões e parcerias público-privadas (PPPs) como mecanismos para atrair capital privado, garantindo que o transporte, a energia e a conectividade digital funcionem como plataformas reais para o setor produtivo, e não como gargalos crônicos.

Desafios de longo prazo e capital humano

Para além das medidas imediatas, a Kinea destaca que a educação e a inovação devem ser tratadas como estratégias horizontais. O foco educacional deve migrar da simples matrícula para o aprendizado efetivo, preparando a força de trabalho para uma economia moderna. A alocação de capital baseada no mérito econômico e o fortalecimento da segurança jurídica completam a visão necessária para criar um ambiente de negócios previsível.

O cronograma sugerido pela gestora estabelece uma ordem lógica: reformas tributárias e concessões como prioridades de curto prazo, seguidas por investimentos estruturais em tecnologia e capital humano no longo prazo. A tese é que a produtividade brasileira exige uma transição sistemática que envolva reguladores, setor privado e o Estado em um esforço conjunto de modernização.

O horizonte da produtividade

O que permanece em aberto é a capacidade política de sustentar essa agenda diante de pressões por subsídios e protecionismo. A transição proposta pela Kinea toca em interesses estabelecidos que historicamente resistem a mudanças na estrutura tributária e na abertura comercial.

Observar como o ecossistema de negócios responderá a essas diretrizes será crucial para entender se o Brasil conseguirá, de fato, atravessar o caminho da produtividade ou se permanecerá preso às ineficiências do passado. A viabilidade dessas reformas dependerá da qualidade da execução e da continuidade das políticas públicas ao longo dos próximos ciclos.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times