A mineradora canadense Kinross vislumbra um "ciclo positivo" para o ouro, com potencial de crescimento impulsionado por avanços tecnológicos e uma demanda global crescente. Rodrigo Gomides, CEO da Kinross no Brasil, afirmou à Bloomberg Línea que a empresa está focada em aumentar a vida útil de suas operações no país e otimizar a eficiência de custos. A Kinross é um player significativo no mercado brasileiro, respondendo por 25% da produção legal de ouro, com 601 mil onças equivalentes produzidas no último ano e projeções de manter esse patamar até 2026.

A principal mina da empresa em Paracatu, Minas Gerais, tem sua vida útil estimada até 2034, mas estudos estão em andamento para viabilizar operações além dessa data. O executivo ressalta que a viabilidade da mina, que processa um teor de ouro relativamente baixo (0,4 grama por tonelada), depende de investimentos contínuos em pessoal, tecnologia e gestão de custos. A empresa investiu mais de US$ 30 milhões em processos como a gravimetria em escala industrial, que utiliza a força centrífuga para separar minerais de diferentes densidades, demonstrando como a evolução tecnológica permite viabilizar recursos antes considerados economicamente inviáveis.

Novas Tecnologias Impulsionam Eficiência

As tecnologias de ponta são cruciais para a sustentabilidade das operações de mineração de baixo teor. A Kinross tem implementado soluções como perfuratrizes autônomas, operadas remotamente a partir de salas de controle. Essas máquinas aumentam a precisão da perfuração, otimizam o controle de desgaste e rotação, e, fundamentalmente, retiram os operadores de áreas de risco. Essa adoção tecnológica não apenas eleva a produtividade, mas também reforça os compromissos da empresa com a segurança e a rastreabilidade da produção de ouro legal, conforme as normas e critérios estabelecidos.

Desafios e Oportunidades no Mercado Brasileiro

O setor de mineração é inerentemente de longo prazo, com um ciclo que pode levar até 15 anos desde a exploração inicial até a produção plena. No Brasil, Gomides observa que, apesar de um número crescente de pequenas mineradoras atraídas pela valorização do metal, o mercado de ouro ainda é concentrado, com cerca de cinco a dez empresas de médio e grande porte liderando a produção. A complexidade do processamento do minério, que exige maior mecanização e tecnologia em comparação com o passado, representa um desafio constante. A Kinross se destaca também como a 12ª maior arrecadadora de royalties de mineração (CFEM) no país, demonstrando sua contribuição econômica e fiscal.

O Cenário Global do Ouro

O mercado global de ouro tem apresentado valorização, com preços flutuando em torno de US$ 2.400 a onça. Fatores como a crescente demanda de bancos centrais, que têm aumentado suas reservas de ouro desde 2022, e o comportamento do mercado indiano, o segundo maior consumidor mundial, influenciam essa dinâmica. No entanto, o aumento das tarifas de importação de ouro pela Índia para poupar reservas cambiais pode representar um fator de impacto. A Kinross, como um dos dez maiores produtores de ouro do mundo, navega neste cenário volátil com cautela, focando no controle de suas operações e na busca por eficiência.

Perspectivas e Desafios Geológicos

Gomides aponta que, embora o ouro seja um mineral abundante globalmente, a falta de um mapeamento geológico aprofundado do território brasileiro constitui um desafio significativo para a expansão do mercado. A colaboração entre o setor privado, representado pelo Ibram, e o governo federal é vista como essencial para acelerar o conhecimento do território e incentivar investimentos. A busca por minerais críticos e estratégicos, em um contexto geopolítico global, torna o momento atual favorável para o setor de mineração, mas a exploração eficaz depende da superação dessas barreiras de conhecimento e infraestrutura.

O cenário para a mineração de ouro no Brasil apresenta um equilíbrio entre oportunidades tecnológicas e desafios geológicos e de mercado. A Kinross demonstra uma estratégia clara de longo prazo, focada em otimizar suas operações existentes e explorar o potencial de expansão, sempre atenta às dinâmicas globais e às especificidades do ambiente regulatório e geológico brasileiro.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Bloomberg Línea