Kris Van Assche, um dos nomes mais respeitados da moda masculina contemporânea, está reativando sua marca homônima quase uma década após colocá-la em hiato. A nova coleção, prevista para ser lançada online em meados de setembro, marca o retorno do designer belga a um projeto autoral, após longas e notáveis passagens como diretor criativo da Dior Homme e, mais recentemente, da Berluti.
O movimento, revelado em uma entrevista ao WWD, não é apenas um retorno, mas uma redefinição. A coleção de estreia contará com cerca de 40 peças, tanto masculinas quanto femininas, produzidas em quantidades limitadas e utilizando tecidos de alta qualidade de deadstock — o excedente da indústria. A decisão sinaliza uma aposta num modelo de negócio mais enxuto e consciente, em forte contraste com a escala industrial dos conglomerados de luxo onde construiu sua reputação.
A busca por autonomia
A trajetória de Van Assche é emblemática da dinâmica do mercado de luxo. Em 2015, ele pausou sua marca pessoal para se dedicar integralmente à Dior Homme, onde atuou por mais de uma década, sucedendo Hedi Slimane. A mudança foi um passo natural para um designer de seu calibre, mas implicou sacrificar a expressão criativa mais íntima em favor da interpretação do legado de uma maison global. Sua subsequente passagem pela Berluti, até 2021, consolidou seu status no panteão dos grandes diretores criativos.
O relançamento, portanto, pode ser lido como uma busca por autonomia. Ao optar por uma produção menor e tecidos reaproveitados, Van Assche não apenas abraça uma pauta de sustentabilidade, mas também se liberta das pressões do calendário oficial da moda e das metas de crescimento exponenciais. Em suas palavras, o momento pedia por uma "expressão profundamente pessoal da moda novamente". É a passagem de diretor criativo para criador-empreendedor, em seus próprios termos.
Um novo modelo para o luxo?
O retorno de Van Assche acontece em um momento em que o conceito de luxo está em fluxo. A aposta em um formato direto ao consumidor, com coleções concisas e uma narrativa de produção responsável, ressoa com uma fatia crescente do mercado que valoriza a autoria e a exclusividade para além do logotipo. Não se trata de competir com os gigantes, mas de criar um nicho sustentável em torno de um nome com forte capital criativo.
O designer não esteve parado desde sua saída da Berluti, expandindo seu trabalho para objetos de design e esculturas. Essa diversificação sugere uma visão mais holística da criatividade, onde a moda é uma das facetas, e não a única. A nova KRISVANASSCHE nasce, assim, com a maturidade de quem já esteve no topo da pirâmide corporativa e agora escolhe construir um projeto com outras métricas de sucesso.
A empreitada será um teste importante. O mercado observará se um designer de alto perfil consegue, de fato, prosperar com um modelo mais contido e pessoal, oferecendo um caminho alternativo para talentos que buscam escapar da engrenagem dos grandes grupos. O sucesso de Van Assche pode inspirar outros a seguir uma rota similar.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Hypebeast





