Sob o sol intenso das cidades indianas, o carrinho de venda não é apenas um suporte para mercadorias; é o palco onde a vida urbana se desenrola. Para Gita Ben, no mercado de Ahmedabad, o Peti Laari — um desses dispositivos de trabalho — representa a fronteira entre a sobrevivência e a estabilidade econômica. O projeto Laari Futures, conduzido pela Chaal Chaal Agency, reconhece que esses carrinhos são, na verdade, peças de infraestrutura urbana móvel, fundamentais para a dinâmica de 12 cidades pesquisadas. Ao documentar 78 tipologias distintas, a pesquisa revela como esses objetos estruturam a ocupação do espaço público e moldam as interações cotidianas.
A anatomia da informalidade urbana
A pesquisa Atlas of (In)Constant Infrastructures, que serve de base para o projeto, desafia a visão de que a informalidade é sinônimo de desordem. Pelo contrário, o design dos carrinhos demonstra uma lógica interna sofisticada, adaptada às necessidades específicas de navegação, armazenamento e exibição de produtos. Quando os custos de aluguel de estruturas básicas como sombra e iluminação tornam-se proibitivos, o carrinho torna-se o único ativo fixo do vendedor. A observação de campo mostrou que, sem essa ferramenta, muitos seriam forçados a operar diretamente sobre o solo, perdendo dignidade e eficiência comercial.
Tecnologia como ferramenta de autonomia
O avanço do projeto, apoiado pelo prêmio Ammodo Architecture, introduz pequenas tecnologias que não alteram a natureza móvel do dispositivo, mas ampliam sua capacidade. Sistemas de energia solar agora alimentam unidades de nebulização para preservar frutas e vegetais, reduzindo perdas causadas pelo calor extremo. Além disso, a integração de iluminação, carregamento de dispositivos móveis e ventilação melhora as condições de trabalho dos vendedores. O design evita a formalização excessiva que poderia engessar o comércio, focando na resiliência do sistema e na manutenção da mobilidade que define a vida nas ruas.
O impacto nas redes sociais e econômicas
O processo de co-design com o grupo Sathwara, em Bhuj, evidencia que a infraestrutura urbana não precisa ser de concreto para ser eficaz. Ao envolver as mulheres vendedoras na criação dos protótipos, a agência garantiu que as soluções atendessem às demandas reais de quem ocupa o espaço público diariamente. Essa abordagem descentralizada sugere que o futuro da urbanidade em economias emergentes pode residir na capacidade de criar redes de suporte flexíveis. O carrinho, portanto, torna-se uma extensão do próprio vendedor, um dispositivo de cuidado que equilibra a necessidade de renda com a instabilidade do território urbano.
Perspectivas para um urbanismo móvel
O que permanece em aberto é como essas intervenções de pequena escala podem influenciar políticas públicas de planejamento urbano a longo prazo. Se o carrinho é um elemento legítimo da infraestrutura, como as cidades devem adaptar seus códigos de ocupação para acolher, em vez de restringir, essa mobilidade? A experiência indiana convida a refletir sobre o papel do design na valorização da economia informal. Resta saber se esse modelo de infraestrutura de cuidado pode ser replicado em outros contextos globais onde a rua é o principal motor da vida econômica.
A imagem de Anita Ben operando seu Motto Laari 2.0 nos mercados de Bhuj deixa uma questão persistente: quantos outros sistemas invisíveis de infraestrutura estão, neste momento, sustentando a vitalidade das nossas cidades sem que tenhamos notado?
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Designboom





