A promoção de profissionais com excelência técnica a cargos de liderança é um movimento natural e desejável para o crescimento das organizações. Contudo, a centralização dos critérios de seleção e ascensão em competências puramente técnicas, negligenciando o desenvolvimento de soft skills, tem gerado um custo elevado e inesperado para as empresas brasileiras. A ausência de habilidades como comunicação não violenta, orientação de liderados e mediação de conflitos transforma a gestão em um campo de aprendizado empírico, muitas vezes marcado por feedbacks punitivos e desalinhamento com os valores corporativos.

Essa lacuna comportamental na liderança não se limita a danos operacionais ou à produtividade. Ela se insere em um contexto nacional de saúde ocupacional cada vez mais preocupante. O Ministério do Trabalho e Emprego, por meio da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), já indicava que os riscos psicossociais no ambiente de trabalho decorrem de falhas na organização e gestão, e não de traços de personalidade. O recente update da NR-1, com a Portaria MTE nº 1.419/2024, consolida essa visão ao incluir a obrigação das empresas de gerenciar esses fatores, integrando-os ao Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR).

A evolução legislativa reflete um cenário alarmante: em 2024, o Brasil registrou um recorde de 472.328 concessões de benefícios por incapacidade temporária devido a transtornos mentais e comportamentais, um aumento de 68% em relação ao ano anterior. Ansiedade e depressão lideram o ranking. Globalmente, a OMS e a OIT estimam perdas de US$ 1 trilhão anualmente por esses motivos. Para as empresas, o impacto se traduz em aumento do Fator Acidentário de Prevenção (FAP) e passivos trabalhistas, além de prejudicar a produtividade e a retenção de talentos.

A Lei nº 14.457/2022, que redefiniu a CIPA para incluir a prevenção de assédio, e a atualização da NR-1 representam um direcionamento para a governança corporativa, incentivando a organização de processos e a capacitação de lideranças. Ao reconhecer a saúde do ambiente profissional como dependente do equilíbrio psíquico e social, a legislação trabalhista amadurece, guiando as empresas a investirem em uma gestão mais humana e, consequentemente, mais resiliente e menos custosa.

Com reportagem de Brazil Valley

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