O cinema iraniano contemporâneo, frequentemente associado ao realismo austero, encontra uma nova e peculiar voz em 'Living Twice, Dying Thrice', o mais recente trabalho do diretor Karim Lakzadeh. A trama acompanha Ibrahim e Davoud, dois mineiros que, após sobreviverem a um desastre em uma mina, concebem um plano inusitado: forjar suas próprias mortes para que suas famílias recebam as indenizações destinadas aos falecidos, enquanto eles tentam recomeçar a vida anonimamente.
Segundo a crítica especializada, o filme utiliza uma premissa de desespero econômico para explorar dilemas morais profundos. A narrativa se afasta dos tropos tradicionais do drama social ao injetar elementos de comédia excêntrica e suspense, desafiando a percepção do espectador sobre a ética do sobrevivente em um sistema que valoriza mais a morte do que a vida do trabalhador.
A estética do desespero e o legado do cinema iraniano
Lakzadeh constrói um cenário visual que remete a clássicos do cinema iraniano, como 'Still Life' de Sohrah Shahid-Saless. A escolha por uma fotografia desaturada e o uso de câmeras pequenas, que conferem uma intimidade quase banal às cenas, reforçam o sentimento de limbo vivido pelos protagonistas. O ambiente árido e nublado funciona como um espelho da desorientação dos mineiros.
Ao mesmo tempo, o diretor dialoga com a tradição do neo-noir, evocando paralelos com obras como 'No Country for Old Men'. A sensação de que cada decisão dos personagens desencadeia um efeito dominó de consequências irreversíveis permeia a jornada. A transição entre o realismo do desastre inicial e a atmosfera surrealista que surge no decorrer da trama é um dos pilares que sustentam a identidade singular do longa.
Mecanismos de uma narrativa errática
O que distingue 'Living Twice, Dying Thrice' de outros thrillers de sobrevivência é a sua estrutura propositalmente digressiva. Lakzadeh introduz personagens enigmáticos e situações absurdas, como uma irmã que atua como 'reaper' e live-streamer de horror, que quebram a tensão do enredo principal. A trilha sonora, que inclui desde covers de karaokê até instrumentais de bandas de rock, reforça essa natureza impulsiva e fragmentada da montagem.
Essa abordagem, embora ocasionalmente reduza o ritmo da história, enriquece a experiência estética. O filme não busca apenas o suspense, mas sim a construção de uma fábula sobre a precariedade. A busca incessante dos protagonistas por uma recompensa financeira que parece sempre fora de alcance serve como metáfora para a instabilidade social que o filme retrata.
Implicações e a ótica do mercado cinematográfico
Para o mercado global, a obra de Lakzadeh representa um desafio à categorização. Ao transitar entre gêneros, 'Living Twice, Dying Thrice' aponta para uma nova tendência no cinema de autor, onde a crítica social não precisa ser estritamente solene. A recepção do filme em festivais internacionais sugere um interesse crescente por narrativas que equilibram a denúncia política com uma excentricidade estilística marcante.
Para o público e críticos, o filme levanta questões sobre como o cinema pode processar traumas sistêmicos. A habilidade de Lakzadeh em alternar entre o humor ácido e o desespero existencial coloca o espectador em uma posição de constante reavaliação dos personagens. O filme não oferece respostas fáceis sobre a moralidade de seus protagonistas, preferindo expor as fissuras de uma sociedade marcada pela desigualdade.
O horizonte de uma fábula moderna
O que permanece incerto após a exibição é o limite entre a crítica social e a pura abstração. A forma como Lakzadeh encerra a jornada dos mineiros, levando-os de minas isoladas a festas luxuosas em Teerã, sugere uma exploração das disparidades de classe que ainda merece análise detalhada.
Os próximos passos do diretor e a recepção do público em diferentes mercados globais serão fundamentais para entender se esta abordagem excêntrica se tornará uma nova linguagem para o cinema iraniano. O filme convida o espectador a refletir sobre a própria natureza do valor humano em tempos de crise.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Little White Lies





