A LIVO, rede brasileira de óticas, está reconfigurando o varejo do setor ao consolidar todas as etapas da jornada de compra sob o mesmo teto. Com um faturamento de R$ 150 milhões no ano passado, a companhia busca eliminar a burocracia que envolve desde a consulta oftalmológica até a entrega final dos óculos, um processo tradicionalmente fragmentado que afasta o consumidor e retarda a atualização de graus corretivos.
Segundo reportagem do Brazil Journal, a estratégia central da empresa é a verticalização total. Ao oferecer exames de visão realizados por optometristas diretamente nas unidades e montar as lentes em laboratórios próprios, a marca consegue entregar o produto final em poucos minutos, transformando o que era uma espera de dias em uma experiência imediata de compra.
A mudança regulatória como catalisador
O avanço da LIVO está ancorado em uma decisão de 2021 do Supremo Tribunal Federal, que validou a atuação de optometristas na realização de exames de visão. Embora não sejam médicos, esses profissionais possuem a qualificação técnica necessária para identificar problemas refrativos, como miopia e astigmatismo, utilizando equipamentos como o autorrefrator. A empresa aproveitou essa abertura jurídica para integrar o exame ao fluxo de venda, oferecendo o serviço gratuitamente como uma forma de atrair clientes e mitigar o déficit de diagnóstico no Brasil.
A tese de Jaime Oriol Miranda, CEO da LIVO, é que a dificuldade de acesso ao exame é o principal gargalo de um mercado que ainda possui índices preocupantes de desassistência ocular. Ao tornar o exame parte da rotina de conveniência da loja, a empresa busca não apenas capturar demanda, mas também educar o consumidor sobre a importância da saúde visual, em um movimento que combina impacto social com eficiência operacional.
A evolução do modelo de negócio
O modelo atual é resultado de uma fusão estratégica iniciada em 2021, quando a Lentesplus, plataforma de lentes de contato fundada por Jaime, adquiriu a LIVO. A união permitiu combinar a base de clientes recorrentes de lentes de contato com a marca de óculos de moda. Essa sinergia possibilita o cross-selling, onde o cliente que compra lentes online é incentivado a visitar o varejo físico para adquirir armações com design autoral, desenvolvidas no Brasil e em Milão.
Internamente, a operação foi desenhada para ser ágil. A integração de sistemas permite que a ordem de montagem seja enviada ao laboratório no momento da venda, com a confecção das lentes levando menos de dez minutos. Esse nível de verticalização é o que diferencia a LIVO de óticas tradicionais, permitindo que a empresa trate os óculos como uma peça de moda, com coleções frequentes e foco em design, em vez de um item médico de uso prolongado.
Implicações para o ecossistema de varejo
O modelo atraiu investidores experientes, incluindo nomes como Ronaldo Pereira, ex-CEO das Óticas Carol, e Eugênio de Zagottis, da RD Saúde. A presença desses veteranos do varejo no cap table sugere uma aposta na capacidade da LIVO de escalar um modelo que equilibra a recorrência do e-commerce de lentes com a margem e o branding das lojas físicas. A contratação de Fernanda Milred, ex-Espaçolaser, como COO, reforça a intenção de acelerar a expansão das franquias.
Para os concorrentes, a estratégia da LIVO impõe um novo padrão de conveniência. Se a entrega imediata se tornar a norma, óticas tradicionais que dependem de estoques externos e laboratórios terceirizados enfrentarão pressões para modernizar suas operações. A empresa projeta um crescimento agressivo, visando chegar a 500 unidades, apostando que o toque e a experimentação física continuarão sendo pilares essenciais para a conversão no mercado de óculos.
Perspectivas e desafios futuros
O desafio para a LIVO agora reside na execução dessa escala. A transição de um modelo focado em e-commerce de lentes para uma rede de centenas de lojas físicas exige processos rigorosos de padronização e gestão de franquias. A inversão da receita, que hoje ainda depende majoritariamente das lentes online, será o principal indicador de sucesso dessa estratégia de varejo integrado.
O mercado de óticas no Brasil permanece fragmentado, o que oferece espaço para consolidação, mas a concorrência por pontos de venda e a formação de mão de obra qualificada em optometria serão variáveis decisivas. O setor observará atentamente se a LIVO conseguirá manter a agilidade de sua operação de laboratório conforme a escala aumenta, mantendo a qualidade do design e a eficiência no atendimento ao cliente final.
A estratégia de converter o exame de vista em um serviço de conveniência dentro da loja altera a dinâmica de poder entre o varejo e o consumidor, mas a sustentabilidade desse modelo dependerá da capacidade da LIVO em equilibrar a eficiência operacional com a demanda por moda e design em um mercado altamente competitivo e sensível a preços.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Brasil Journal Tech





