A cadeia produtiva do biodiesel, articulada com sua frente parlamentar no Congresso, elevou a pressão sobre o governo federal. Em uma carta entregue diretamente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o setor pediu a implementação imediata da mistura de 17% de biodiesel no diesel comercializado no país, o chamado B17.

O movimento, formalizado durante uma visita presidencial ao Instituto Mauá de Tecnologia em São Paulo, não é apenas um pleito técnico. Trata-se de uma manobra política e econômica calculada para acelerar o cronograma previsto na Lei do Combustível do Futuro. A leitura é que o setor quer testar o compromisso do governo com a transição energética, colocando-o diante de uma escolha entre a agenda verde e o controle da inflação no frete.

A aposta na validação técnica

O principal argumento do lobby, que inclui entidades como Abiove, Aprobio e Ubrabio, é que o dever de casa técnico foi feito. Segundo o documento, o Brasil concluiu “um dos maiores programas nacionais de validação realizados no mundo” para atestar a segurança e a eficiência de misturas mais altas de biodiesel. A iniciativa teria envolvido 16 laboratórios e universidades em testes de durabilidade, desempenho e emissões em motores, veículos e máquinas agrícolas.

Ao apresentar esses dados, a indústria busca neutralizar a principal barreira para o avanço da mistura: a desconfiança sobre o impacto nos motores e na performance da frota. A mensagem ao Palácio do Planalto é clara: as dúvidas técnicas foram sanadas, e a decisão, agora, é puramente política. Resta saber se o governo concorda com essa avaliação ou se demandará novas garantias.

O cálculo político e econômico

A urgência mencionada na carta aponta para o “contexto internacional”, uma referência à crescente demanda por credenciais de sustentabilidade. Para o setor, o B17 seria uma vitória rápida para a agenda ambiental brasileira, gerando um fato positivo com repercussão global. No entanto, o governo precisa ponderar o outro lado da equação: o custo.

Historicamente, o biodiesel tem um preço superior ao do diesel fóssil, e qualquer aumento no percentual da mistura tende a pressionar o valor final na bomba, com impacto direto nos custos de transporte e na cadeia de preços. A decisão de Lula, portanto, envolverá um delicado balanço entre apoiar uma indústria estratégica nacional, cumprir metas ambientais e evitar um novo foco de pressão inflacionária que poderia desgastar sua base política e econômica.

A bola está com o Planalto. A pressão do setor produtivo formalizou um dilema que opõe o ritmo da transição energética às urgências da conjuntura econômica. A resposta do governo definirá não apenas o preço do diesel, mas também a velocidade com que o Brasil pretende, de fato, descarbonizar sua matriz de transportes.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times