Imagine um futuro não tão distante, onde as ruas se tornam palcos de uma nova dança tecnológica. Carros deslizam silenciosamente, movidos por inteligência artificial, e para distingui-los de seus antecessores movidos a humanos, um novo sinal visual emerge: uma luz ciano pulsante. Não é um mero capricho estético, mas uma proposta concreta do Departamento de Transportes dos Estados Unidos, através de sua Administração Nacional de Segurança no Trânsito (NHTSA), para criar um padrão visual unificado para veículos autônomos.

A ideia é simples, mas carregada de significado: um brilho azul-esverdeado distinto, que se tornaria um código universal para identificar quando um sistema automatizado está no controle. A escolha do ciano não é aleatória. Segundo a NHTSA, a cor foi selecionada por não ser utilizada atualmente para outras funções importantes no trânsito, evitando confusões com luzes de emergência ou de sinalização. Além disso, a proposta conta com o endosso de entidades como a SAE International, uma associação profissional de engenharia automotiva e aeroespacial. A SAE, após consultar fabricantes, fornecedores e especialistas, recomendou o ciano por sua clareza semântica, contrastando com as cores mais comuns como âmbar, vermelho ou branco, que já possuem significados estabelecidos.

A padronização proposta pela NHTSA visa estabelecer “padrões de desempenho claros para as lâmpadas de marcação de veículos automatizados”, segundo o administrador Jonathan Morrison. O objetivo é pavimentar o caminho para a “inovação segura e estabelecer regras claras na estrada para veículos automatizados”. A Mercedes-Benz já deu um passo nessa direção em 2023, introduzindo luzes turquesa em seus modelos EQS e Classe S em testes na Califórnia e Nevada. Essas luzes indicavam quando o sistema “Drive Pilot” estava ativo. A montadora afirma ter trabalhado com uma gama de especialistas, incluindo engenheiros, gestores de conformidade e eticistas, para chegar à cor, descrita como um verde-azulado (teal), que se mostrou claramente distinguível da iluminação de trânsito e de emergência.

Mas a proposta vai além da mera funcionalidade. Há uma dimensão estética e cultural na escolha do ciano. A cor evoca o futurismo, um elemento recorrente na ficção científica, como em filmes como “Tron: Legacy”. Ao ver luzes turquesa ou ciano em um veículo, a comunicação é instantânea: tecnologia avançada. Para motoristas em cidades que já testam veículos autônomos, essa cor pode se tornar um atalho visual para identificar um carro que é, possivelmente, autônomo, elétrico ou de alta tecnologia. A associação com o futuro e a ciência torna o ciano uma escolha intuitiva para comunicar automação, mesmo sem uma campanha educativa extensiva.

No entanto, a implementação dessa nova linguagem visual levanta questões. Como essa padronização afetará a percepção pública e a confiança nos veículos autônomos? Será que uma cor única será suficiente para transmitir todas as nuances de operação de um sistema autônomo, especialmente em cenários complexos? A proposta da NHTSA, agora aberta para comentários públicos, é um passo importante para a regulamentação e integração desses veículos em nosso cotidiano. Mas, enquanto o ciano promete clareza, ele também nos convida a refletir sobre como a tecnologia molda nossa percepção e como, visualmente, aprendemos a navegar em um mundo cada vez mais automatizado. A estrada à frente, iluminada por um brilho azul-esverdeado, ainda guarda muitas perguntas.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fast Company Design