Por décadas, a M-30 foi mais que uma via expressa em Madri; era uma fronteira de asfalto. Dezesseis pistas de tráfego contínuo que cortavam o tecido urbano, separando os distritos de Salamanca e Ciudad Lineal não apenas geograficamente, mas socialmente. Onde antes havia o ruído incessante de motores e uma barreira intransponível para pedestres, uma nova paisagem começa a tomar forma. A cidade decidiu costurar essa ferida.
A aposta na sutura urbana
O Parque Ventas, como foi batizado, é a materialização de uma tendência global de regeneração que busca devolver às pessoas espaços antes dominados por carros. Com um orçamento de 78,9 milhões de euros, a prefeitura de Madri está construindo uma laje de 16.370 metros quadrados sobre um trecho da rodovia. A obra, que já ultrapassou 70% de sua execução, não é apenas um jardim suspenso; é uma declaração política sobre o futuro das metrópoles. A ideia é apagar a memória da divisão, permitindo que moradores caminhem sobre a autopista sem sequer notá-la sob os pés.
O verde que nasce do concreto
O projeto prevê o plantio de quase mil árvores e dezenas de milhares de arbustos, criando um corredor ecológico onde antes havia apenas concreto. Contudo, a iniciativa não é um consenso. Associações de moradores e grupos ambientalistas, como o Ecologistas en Acción, criticaram o alto custo e o impacto ambiental inicial, que incluiu a derrubada de árvores existentes para dar lugar à estrutura. É o paradoxo da infraestrutura verde: para construir o novo, muitas vezes é preciso destruir parte do antigo.
Com a conclusão prevista para a primavera de 2027, Madri se prepara para inaugurar não apenas um parque, mas um experimento. A questão que permanece é se a cicatrização desta ferida urbana será completa, ou se as memórias do asfalto e as controvérsias de sua construção continuarão a ecoar sob a nova grama.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





