A alcunha "Magnificent 7", popularizada em maio de 2023 por Michael Hartnett, estrategista-chefe de investimentos do Bank of America, batizou um grupo de gigantes da tecnologia — Apple, Amazon, Alphabet, Meta, Microsoft, Nvidia e Tesla — que impulsionaram o mercado de ações em meio ao boom da inteligência artificial. No entanto, Hartnett agora sinaliza que o próprio fator que conferiu a essas empresas seu status de "obrigatórias" em portfólios de investimento está se tornando uma vulnerabilidade.

A Era da Abundância e a Fuga dos Títulos

Hartnett explica que a ascensão das "Mag 7" foi, em parte, um reflexo da aversão dos investidores a títulos do governo. "Ninguém queria deter títulos do governo", afirmou em uma recente aparição no podcast Master Investor. "Não quero o balanço do governo. Eles gastam como marinheiros bêbados. Por que eu emprestaria dinheiro a eles? Prefiro colocar meu dinheiro em empresas que têm toneladas de caixa e… não gastam nada disso." Essa estratégia permitiu que as "Mag 7" acumulassem vastas reservas financeiras, operando com fluxos de caixa positivos e sem a necessidade de recorrer a financiamentos externos significativos. A solidez financeira e a disciplina de gastos eram, portanto, pilares de sua "magnificência", servindo como um hedge natural contra a volatilidade e a incerteza econômica.

O Novo Jogo: IA e o Endividamento Corporativo

Contudo, o cenário mudou drasticamente. Os "hiperescaladores" da IA agora estão investindo em uma escala sem precedentes. Goldman Sachs projeta que os investimentos globais em IA excederão US$ 1 trilhão em 2026, com Jamie Dimon, CEO do JPMorgan Chase, antecipando que os gastos dos hiperescaladores em IA atingirão essa marca já no próximo ano. Esse apetite voraz por capital para infraestrutura e desenvolvimento de IA contrasta com o aumento dos custos de empréstimo. Com os rendimentos dos Treasuries de 10 anos próximos a máximas de duas décadas e os de 30 anos acima de 5,5% — patamares não vistos desde 2002 —, o setor de tecnologia tem esgotado suas reservas de caixa e recorrido massivamente aos mercados de crédito corporativo.

A Subserviência ao Mercado de Títulos

Essa nova realidade significa que as perspectivas das "Magnificent 7" estão cada vez mais atreladas à mesma classe de ativos que elas antes usavam como proteção. "Agora eles estão gastando mais de um trilhão por ano em capex de IA, e estão com fluxo de caixa negativo na casa dos US$ 200 bilhões", detalha Hartnett. "Portanto, eles têm que ser, de certa forma, subservientes ao mercado de títulos. Se o mercado de títulos aumentar os rendimentos ou spreads demais, você não terá o gasto." A capacidade de financiamento das gigantes de tecnologia agora depende da estabilidade e dos custos impostos pelo mercado de títulos, uma inversão de papéis que pode limitar sua capacidade de expansão e inovação.

O Limiar de Dor e as Ameaças Futuras

O mercado está dividido sobre as recentes iniciativas de recompra de títulos pelo Tesouro dos EUA, mas a lição para os investidores é clara: o Tesouro intervirá para suavizar a volatilidade. Para Hartnett, o patamar de 5% nos rendimentos dos títulos é mais significativo para os formuladores de políticas do que para os investidores. Domesticamente, rendimentos mais altos dificultam o endividamento das empresas de IA para capex, impactando o "efeito riqueza" gerado pelo mercado de ações. Geopoliticamente, a corrida para superar a China em IA exige estabilidade no mercado de títulos, levando o governo a agir para evitar movimentos desordenados. As ameaças futuras, no entanto, vêm de duas frentes: "O que eles não podem necessariamente manipular é se os eleitores basicamente votarem contra a IA. Então, a ameaça de Wall Street são os títulos. A ameaça da Main Street são os eleitores."

O futuro das "Magnificent 7" parece agora intrinsecamente ligado à dinâmica do mercado de títulos e à percepção pública sobre a IA, afastando-se da era de abundância financeira que as definiu. O desafio será navegar um ambiente de custos de capital mais altos e escrutínio público, mantendo a dominância em um setor em constante ebulição.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune