A alta temporada de exposições em Londres, impulsionada pela Frieze Art Fair, oferece um leque de opções, mas uma em particular se destaca pela sua ambição e relevância: "This Is Still Not a Pipe: The Afterlife of Magritte", na Gagosian. Morto em 1967, René Magritte, o pintor-pensador belga, continua a ser uma figura instigante, um "influencer" no melhor sentido da palavra. A mostra, organizada em colaboração com a Fondation Magritte, não se limita a exibir o trabalho do mestre; ela o entrelaça com obras de mais de quarenta artistas que foram tocados por sua visão subversiva, incluindo peças criadas especificamente para a ocasião.

O espaço da Gagosian em Mayfair foi transformado, abandonando o tradicional cubo branco por cortinas escuras, conferindo à exposição uma atmosfera de museu. É um feito notável para uma galeria comercial reunir empréstimos de museus e coleções particulares de tamanha magnitude. Obras icônicas como "Les Fleurs du voyage" (1926), que marcou a primeira individual de Magritte em Bruxelas, e "La Clef des songes" (1935), pintada para sua estreia nos Estados Unidos, estão presentes. "La Lampe philosophique" (1936), um autorretrato surreal onde o nariz se estende até mergulhar em um cachimbo, tornou-se um dos destaques virais da exposição, ecoando trabalhos anteriores como "The Treachery of Images".

Magritte, embora tenha considerado a escrita como uma carreira inicial, encontrou na pintura o meio inevitável para dar vida aos seus pensamentos. Sua paixão por histórias de mistério o levou a escrever romances policiais sob o pseudônimo Renghis. Em suas próprias palavras, "Para mim, pintar é dar vida aos meus pensamentos. Gosto muito de poetas e escritores, mas não sou escritor, por isso penso em imagens, não em romances e poemas." Seus "Écrits complets", reunidos em um volume robusto, revelam um artista introspectivo e complexo, cujos ensaios, cartas e manifestos complementam a compreensão de sua obra visual. Biógrafos como Alex Danchev aproximam seu pensamento ao de Wittgenstein e Lewis Carroll, unidos pela exploração da maleabilidade da realidade.

A vida de Magritte contrastava com a inquietação de sua mente. Casado com Georgette, seu amor de juventude, viveu uma existência pacata em um bairro residencial de Bruxelas, pintando na sala de casa, muitas vezes de terno e gravata. Apesar de admirado por contemporâneos, o reconhecimento comercial veio apenas nos últimos anos de sua vida. Sua breve passagem por Paris (1927-1930) foi marcada por desentendimentos com André Breton e o círculo surrealista, especialmente sobre o papel dos sonhos e a presença de símbolos religiosos, evidenciando seu distanciamento das ortodoxias do movimento.

Magritte definia a poesia não no sonho, mas na surpresa e no encantamento gerados pela realidade. A obra "L’Empire des lumières", que justapõe um céu diurno a uma paisagem noturna, exemplifica essa busca pelo "poder de nos surpreender e encantar". Essa convicção o tornou um outsider, um artista que se recusava a explicar o mistério. "O mistério não é uma das possibilidades da realidade. O mistério é o que é absolutamente necessário para que a realidade exista", escreveu. A tela "A maldição", que exibe um céu azul sereno, provoca uma reviravolta na percepção do visitante ao ser confrontado com seu título, um testemunho do poder duradouro de Magritte em nos fazer questionar o que vemos.

A obra de Magritte, com seu questionamento constante sobre a natureza da imagem e da realidade, parece mais pertinente do que nunca em um mundo onde a linha entre o real e o virtual se torna cada vez mais tênue. A exposição na Gagosian oferece um convite para revisitar o legado de um artista que, com seus cachimbos impossíveis e céus ambíguos, nos ensinou a ver o mundo sob uma nova e provocadora luz.

Com reportagem de Brazil Valley

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