O asfalto de Málaga, palco de uma cidade vibrante e moderna, esconde sob si camadas de história que, por vezes, se revelam de forma dramática. A expansão de uma nova linha de metrô, planejada para conectar o centro urbano a importantes hospitais, transformou-se em um portal para o passado. Ao perfurar o subsolo da Calle Hilera, operários e arqueólogos se depararam não com rochas inertes, mas com os vestígios de uma metrópole romana há muito esquecida, Malaca. O que começou como um obstáculo para a obra pública evoluiu para uma das mais significativas descobertas arqueológicas da Espanha: uma necrópole que já contabiliza mais de mil indivíduos sepultados.
Um Legado Desenterrado
A escavação arqueológica, que se arrasta há meses, já documentou cerca de 984 complexos funerários, um número que continua a crescer à medida que os trabalhos avançam. Os restos datam de um período crucial do Império Romano, entre os séculos II e IV d.C., e se estendem por aproximadamente 400 metros. O mais surpreendente, segundo relatos locais, é que antes desta descoberta, não havia qualquer registro prévio de um sítio funerário desta magnitude na área. A crença predominante era que a região, por ter sido considerada terra ganha ao mar em épocas posteriores, não guardaria vestígios tão antigos. Essa suposição foi agora radicalmente alterada, forçando historiadores a reconsiderar a extensão e a importância de Malaca como um porto estratégico e um centro populacional no Mediterrâneo.
Riqueza e Diversidade nas Tumbas
Os achados arqueológicos oferecem um vislumbre fascinante das práticas funerárias e da sociedade romana. As tumbas, escavadas em argila vermelha e posteriormente cobertas por camadas de terra de diferentes épocas, apresentam uma notável variedade de formas. Encontram-se desde sepulturas revestidas com tejas romanas (tegulae), até covas simples, cistas de pedra e, em um detalhe tocante, enterros de recém-nascidos em ânforas. A superposição de algumas tumbas em até três níveis sugere um uso contínuo e a necessidade de otimizar o espaço ao longo do tempo. A presença de moedas de diversas origens, encontradas entre os restos, corrobora a história de Malaca como um porto cosmopolita, um ponto de encontro para pessoas de todo o Mediterrâneo. Uma equipe de arqueólogos e antropólogos está agora debruçada sobre os vestígios, buscando decifrar os segredos sobre a dieta, as doenças, as ocupações e as crenças dessas antigas populações.
O Futuro do Passado e o Presente da Cidade
A descoberta levanta questões importantes sobre o futuro da obra do metrô e o destino dos achados. A fase de escavação na Calle Hilera, inicialmente prevista para ser concluída em novembro, agora se estenderá até o início de 2027. Embora a data geral de abertura do metrô não deva ser afetada, a integração dos restos arqueológicos no projeto é um desafio logístico e financeiro. Promete-se que os vestígios mais significativos serão abrigados no Museu de Málaga, com um espaço dedicado a ser criado próximo à estação de Guadalmedina, onde já repousam remanescentes de um bairro islâmico. A diversidade de sepulturas será representada em um museu arqueológico específico do metrô, garantindo que a história de Malaca permaneça acessível às futuras gerações. A cidade, ao avançar em sua modernização, demonstra um compromisso em honrar e preservar seu passado, entrelaçando o concreto e o histórico de forma singular.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka




