O Consell de Mallorca finalizou nesta segunda-feira a extração completa dos destroços de Ses Fontanelles, uma embarcação mercante romana datada do século IV d.C. A operação, considerada uma das mais complexas intervenções arqueológicas subaquáticas já realizadas na Espanha, mobilizou especialistas da Universitat de les Illes Balears, da Universitat de Barcelona e da Universidad de Cádiz ao longo de quatro meses de trabalho ininterrupto.

O resgate marca o encerramento da fase de recuperação física do sítio, mas inaugura um longo período de investigação científica. A estrutura do casco, agora em processo de desalinização em piscinas no Castell de Sant Carles, oferece uma oportunidade singular para reconstruir as dinâmicas de comércio e navegação que conectavam o Mediterrâneo há mais de 1.700 anos.

A relevância histórica da descoberta

A importância de Ses Fontanelles reside no seu excepcional estado de conservação, um fator raro em naufrágios da Antiguidade tardia. Diferente de outros sítios que sofreram com a degradação biológica ou a ação de correntes, a estrutura encontrada em Mallorca preservou elementos orgânicos que geralmente desaparecem com o tempo. A análise desse material permite aos historiadores traçar um mapa mais preciso da logística comercial romana, que dependia intensamente de rotas marítimas para o abastecimento de províncias distantes.

Além da estrutura do navio, a escavação de um perímetro de sete metros ao redor do naufrágio revelou um conjunto de artefatos que funcionam como uma cápsula do tempo. A presença de cerâmicas norte-africanas, cestos de fibra vegetal e até restos de velas de linho indica que o navio não era apenas uma unidade de transporte, mas um microcosmo da vida cotidiana da tripulação, oferecendo detalhes técnicos sobre a fabricação de velas e sistemas de costura da época.

Mecanismos de preservação e técnica

O sucesso da operação dependeu de um rigoroso protocolo científico. A utilização de globos de flotabilidade permitiu o içamento delicado das seções do casco, evitando tensões estruturais que poderiam fragmentar a madeira encharcada. O transporte até o laboratório foi apenas o primeiro passo de um protocolo de conservação que se estenderá por pelo menos um ano e meio, garantindo a estabilidade química dos materiais antes de qualquer tentativa de restauração definitiva.

No laboratório ARQVAtec, em Cartagena, as peças serão submetidas a um processo de impregnação com polietilenoglicol e liofilização. Esta técnica é fundamental para substituir a água que preenche as células da madeira por um polímero que impede o colapso estrutural durante a secagem. Sem esse procedimento, a exposição ao ar resultaria em uma deformação irreversível da embarcação, invalidando qualquer estudo arqueológico posterior.

Implicações para o ecossistema científico

Para a comunidade acadêmica, o achado reforça a necessidade de cooperação entre instituições públicas e centros de pesquisa especializados. A colaboração entre o governo insular de Mallorca e as universidades envolvidas estabelece um novo padrão para o manejo de patrimônio subaquático. O projeto Arqueomallornauta demonstra que a arqueologia moderna exige uma infraestrutura interdisciplinar, que vai desde o mergulho técnico da Armada até a análise química de alta precisão em laboratório.

Para o público, a descoberta transcende o interesse acadêmico. A exposição planejada para novembro no Centro Cultural La Misericòrdia busca democratizar o conhecimento sobre o passado marítimo. Ao transformar um objeto de estudo em uma narrativa pública, Mallorca se posiciona como um hub europeu de conservação, atraindo atenção para a fragilidade do patrimônio submerso e a necessidade de investimentos contínuos em arqueologia de salvamento.

Perspectivas e incertezas

O trabalho científico está apenas começando. A análise das madeiras e a datação radiocarbônica trarão dados mais precisos sobre a origem e a vida útil da embarcação, mas questões sobre as circunstâncias exatas do naufrágio ainda permanecem abertas. O que causou o afundamento e qual era o destino final da carga são perguntas que os pesquisadores esperam responder conforme o inventário for concluído.

O sucesso desta extração serve como um precedente para outros sítios arqueológicos no Mediterrâneo. O desafio daqui para frente será manter o rigor científico em um ambiente onde pressões orçamentárias e interesses comerciais frequentemente competem com a preservação do legado histórico. A capacidade das instituições em manter o financiamento para as fases de laboratório determinará o quanto este achado poderá, de fato, reescrever a história naval.

O resgate de Ses Fontanelles é um lembrete de que o fundo do mar ainda guarda capítulos fundamentais da civilização ocidental, esperando apenas pela tecnologia e pelo método corretos para serem revelados. O futuro da arqueologia subaquática dependerá de quão bem a ciência conseguirá equilibrar a conservação técnica com a necessidade de exposição e educação pública.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España