Um dilema infraestrutural se desenha em Mallorca, um dos principais destinos turísticos da Europa. Para combater o crescente estresse hídrico, a ilha espanhola avalia dois caminhos opostos: construir mais uma grande usina de dessalinização ou, pelo mesmo valor, investir no plantio de um milhão de árvores.
A escolha, reportada pelo site espanhol Xataka, transcende uma simples análise de custo-benefício. Ela representa uma bifurcação estratégica entre a dependência de uma solução tecnológica, intensiva em energia e com externalidades ambientais, e o investimento em uma infraestrutura baseada na natureza, que aposta na resiliência dos ciclos hidrológicos.
O custo oculto da tecnologia
A aposta na dessalinização não é nova para a ilha. Na última década, a produção de água dessalinizada em Mallorca quintuplicou. Essas "fábricas de água" garantem o abastecimento durante picos de seca e demanda turística, mas seu funcionamento cobra um preço ecológico alto. O principal problema não é apenas o consumo elétrico, mas o descarte da salmoura hipersalina no mar.
Esse subproduto afeta diretamente as pradarias de Posidonia oceanica, uma erva marinha vital para o ecossistema do Mediterrâneo. Um estudo da Universitat de les Illes Balears, citado pela reportagem, aponta que a alta salinidade causa estresse oxidativo e dano celular na planta, chegando a reduzir o tamanho de suas folhas em mais de 75% nas áreas de maior concentração. O dano, alertam os cientistas, pode ser irreversível.
A infraestrutura mais antiga do mundo
Em contrapartida, a proposta de reflorestamento massivo se apresenta como uma obra de engenharia hidrológica natural. A lógica é simples: mais cobertura vegetal significa maior infiltração de água no solo, o que, por sua vez, recarrega os aquíferos subterrâneos já esgotados. Não se trata de uma ideia romântica, mas de uma solução com base científica.
Estudos indicam que o reflorestamento com espécies nativas pode aumentar a infiltração em mais de 25%. Em solos florestais saudáveis, a taxa de infiltração supera os 100 mm por ano, contra menos de 60 mm em áreas degradadas. Na prática, restaurar a cobertura florestal poderia ampliar a recarga dos aquíferos em até 35%. Um milhão de árvores, estrategicamente plantadas, funcionariam como uma imensa e permanente esponja natural, sem consumir energia nem gerar resíduos tóxicos.
O debate em Mallorca não sugere um abandono completo das usinas de dessalinização, que servem como um seguro essencial contra secas extremas. A questão que se impõe é sobre o equilíbrio. Fiar o futuro hídrico apenas na tecnologia de força bruta se mostra uma estratégia de alto risco ecológico. A alternativa do reflorestamento é um investimento em resiliência, uma aposta de que a infraestrutura mais eficiente pode ser aquela que já existe na natureza.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





