A economia brasileira pode registrar em 2027 seu pior desempenho desde a pandemia, com um crescimento estimado em apenas 1% mesmo num cenário otimista. O alerta foi feito por Mansueto Almeida, economista-chefe do BTG Pactual e uma das vozes mais respeitadas do mercado, durante um evento em São Paulo.

A projeção reflete o impacto defasado da política monetária restritiva, mas o diagnóstico central de Mansueto é outro: o problema fundamental do Brasil é fiscal. A combinação de juros que permanecem em patamares elevados e a incerteza sobre a trajetória da dívida pública criam um teto para a expansão do país, uma amarra autoimposta que limita o potencial da atividade econômica.

O diagnóstico fiscal

O ponto de Mansueto é que o país não vive uma crise estrutural disseminada, como a que marcou a recessão de 2015 e 2016. “Não é o Brasil de 10 anos atrás. O Brasil hoje não tem nenhuma grande crise setorial”, afirmou, citando a ausência de problemas simultâneos em áreas como petróleo, energia ou construção, que agravaram o quadro na década passada. Os fundamentos, segundo ele, são mais sólidos, com avanços na produção de petróleo, no agronegócio e no mercado de capitais.

O desafio, portanto, está concentrado nas contas públicas. O economista destacou que o gasto federal deve acumular um crescimento real de 21% entre 2023 e 2026, um ritmo insustentável. Embora o governo tenha reduzido o déficit primário, a despesa com juros da dívida deve saltar de 6% para 8,5% do PIB, elevando o déficit nominal para perto de 9%. A questão que o mercado não consegue responder, segundo ele, é quando a dívida pública vai parar de crescer.

A condição para a virada

O pessimismo com a atividade, contudo, não é uma sentença. A análise de Mansueto embute uma condicionalidade clara: uma mudança na condução da política fiscal poderia alterar o cenário rapidamente. Ele recorda sua própria experiência no governo de Michel Temer, quando um plano de ajuste crível permitiu que a taxa de juros caísse de 14,25% para 6,5% em um ano e meio.

A lógica seria a mesma para o próximo ciclo. “Se no início do próximo governo um novo plano fiscal fizer o mercado conseguir enxergar que a dívida (...) para de crescer e começa a cair, imediatamente o juro cai”, avalia. Esse movimento destravaria investimentos, aliviaria o balanço das empresas e abriria espaço para o crescimento via produtividade, um fator essencial dado que o desemprego já se encontra em níveis baixos.

O prognóstico de Mansueto, portanto, é menos uma previsão e mais um aviso. O caminho para um crescimento baixo está traçado pelas atuais políticas, mas a rota alternativa depende de uma decisão de controlar o crescimento dos gastos. A dificuldade, como sempre, não está no diagnóstico, mas na execução política.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Money Times