Marrocos prevê destinar cerca de €11 milhões em seu orçamento de 2027 para a continuação dos estudos de viabilidade de um ambicioso projeto: a construção de um túnel submarino que ligue o país à Espanha através do Estreito de Gibraltar. A verba, que totaliza mais de 120 milhões de dirhams, não se destina à construção em si, mas sim a uma nova avaliação técnica e ambiental de uma ideia que completa quatro décadas de gestação. Importante ressaltar que a aprovação formal do plano de trabalho ainda depende da 44ª sessão do Comitê Governamental Conjunto, o que significa que o gasto ainda não está totalmente garantido. O movimento marroquino sinaliza, ainda assim, a manutenção do comprometimento de Rabat com a iniciativa — um projeto que historicamente demandou avanço sincronizado entre ambos os países. A Espanha, por sua vez, já está investindo em suas próprias atualizações técnicas, e qualquer decisão concreta de edificação exigirá um novo acordo bilateral, como reafirmado pelo governo espanhol em 2023.
Análise: Um Projeto de Longo Prazo com Implicações Geopolíticas
A decisão de Marrocos de incluir fundos para a continuidade dos estudos sobre o túnel submarino sob o Estreito de Gibraltar reforça a natureza estratégica e de longo prazo desta iniciativa. O projeto, que remonta à década de 1980, é um testemunho da persistência e da visão de ambos os governos em explorar uma conexão física permanente entre a África e a Europa. A verba prevista para 2027, detalhada nos documentos orçamentários do Ministério de Equipamento e Água de Marrocos e gerida pela empresa estatal SNED, visa revisar estudos de engenharia prévios, atualizar a gestão ambiental, investigar a geologia do leito marinho e realizar novas análises geoestratégicas, jurídicas e econômicas. Este esforço conjunto com a espanhola Secegsa sublinha a complexidade técnica e a necessidade de uma abordagem colaborativa para superar os desafios inerentes a uma obra desta magnitude.
Mecanismos de Estudo e Cooperação Bilateral
Os novos estudos se concentrarão em sanar as limitações tecnológicas enfrentadas em campanhas geológicas anteriores, especialmente na área do Umbral de Camarinal. A reserva de mais de meio milhão de euros para um modelo geológico tridimensional, sob a supervisão do Conselho Superior de Investigação Científica (CSIC), demonstra a seriedade com que as questões geológicas estão sendo tratadas. A participação de sismômetros de fundo oceânico (OBS) e a análise de amostras de sondeos marinhos pela Universidade de Salamanca são componentes cruciais para entender a estabilidade e as condições do subsolo marinho. Do lado espanhol, a Secegsa, com o apoio da Ineco, está atualizando seu projeto preliminar de 2007, propondo inclusive novas conexões ferroviárias para a terminal norte, próxima a Vejer, com o objetivo de integrar o futuro túnel às redes de transporte europeias. A avaliação da viabilidade de escavação pela especialista alemã Herrenknecht adiciona uma camada de expertise internacional ao processo.
Implicações para a Conectividade e as Relações Marrocos-Espanha
O túnel sob o Estreito de Gibraltar transcende a mera infraestrutura de transporte; representa um elo estratégico com profundas implicações geopolíticas e econômicas para Marrocos e Espanha, e para a União Europeia. O relançamento dos trabalhos em abril de 2023, na 43ª reunião do Comitê Governamental Conjunto, após um período de menor atividade, sinalizou um renovado interesse em fortalecer os laços bilaterais e a conectividade. A utilização de fundos de recuperação europeus pela Espanha para suas atualizações técnicas evidencia o interesse da UE em um projeto que pode reconfigurar rotas comerciais e de migração, além de potencializar o turismo e o intercâmbio cultural. A decisão de priorizar um túnel ferroviário, em detrimento de um projeto de ponte, sugere uma aposta em uma solução mais robusta e com menor impacto ambiental visual.
Perguntas em Aberto sobre o Futuro do Projeto
Apesar dos avanços e do comprometimento financeiro previsto por Marrocos, o túnel sob o Estreito de Gibraltar ainda enfrenta um longo caminho. A aprovação formal do plano de trabalho pela 44ª sessão do Comitê Governamental Conjunto é um passo pendente, indicando que o gasto ainda não está totalmente garantido. As questões que permanecem são inúmeras: qual será o cronograma real para a conclusão dos estudos de viabilidade? Como os desafios técnicos e geológicos serão superados de forma sustentável? Quais serão os custos finais de construção e como serão financiados? E, crucialmente, como este megaprojeto impactará as dinâmicas migratórias e de segurança na região? A resposta a estas perguntas definirá o futuro desta obra monumental.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Xataka





