Mary Shelley, imortalizada por "Frankenstein", demonstrou uma visão profética em sua obra menos conhecida, "O Último Homem". Publicado em 1826, o romance, ambientado no final do século XXI, narra a ascensão e queda de uma civilização dizimada por uma contagiante pandemia, exacerbada por conflitos humanos. Em um mundo ainda a lidar com as sequelas da COVID-19 e as crescentes ameaças climáticas, a obra de Shelley ganha uma relevância surpreendente.

A Profecia de "O Último Homem"

"O Último Homem" transcende a ficção científica pós-apocalíptica ao explorar temas que espelham as ansiedades do século XXI. A narrativa, dividida em três volumes, começa com um romance de corte na Inglaterra do futuro, mas rapidamente se desdobra em uma espiral de infidelidades pessoais e políticas que desestabilizam a nação. A guerra de independência grega, iniciada pelos líderes da corte, torna-se o vetor para a disseminação de uma praga letal, originada perto de Constantinopla. Este contágio global, aliado à falha na cooperação internacional para seu controle, culmina na queda de governos, anarquia e a extinção iminente da humanidade, deixando apenas um narrador solitário, Lionel Verney.

O Reflexo do Luto Pessoal e Político

A obra de Shelley é intrinsecamente ligada ao seu "Journal of Sorrow" (Diário de Luto), escrito após a trágica morte de seu marido, o poeta Percy Bysshe Shelley, em 1822, e a perda de três de seus filhos. O isolamento social e o desespero que ela sentiu foram transfigurados na figura de Verney, o último homem. A peste, no romance, simboliza as tragédias pessoais que assolaram seu círculo íntimo, enquanto a falha da sociedade em conter a epidemia reflete uma advertência sobre os perigos da irresponsabilidade e do conflito desenfreado em escala global. A autora identificou-se com o protagonista, como revelado em seu diário, e personificou amigos em personagens, como Lord Raymond (inspirado em Lord Byron) e Adrian (em Percy Shelley).

Conexões com o Presente e o Futuro

As preocupações de Shelley com o clima extremo, pandemias e a extinção de espécies ecoam diretamente nos desafios contemporâneos. A narrativa descreve como o cerco de Constantinopla agrava o calor e a devastação da cidade, precipitando a epidemia. A subsequente falha dos governos globais em agir em conjunto para conter o contágio é um paralelo sombrio com a inação diante das crises climáticas e sanitárias atuais. Shelley, no entanto, não pinta um quadro de desespero absoluto. Mesmo com a extinção da humanidade, a vida persiste em outras formas: animais, plantas, o ambiente natural e até mesmo os vestígios da agricultura humana. Essa resiliência da natureza oferece um vislumbre de esperança.

Um Legado de Esperança e Reflexão

No final de "O Último Homem", Verney decide registrar sua história, "A História do Último Homem", que se revela ser o próprio livro que o leitor tem em mãos. Em um ato de esperança contra todas as probabilidades, ele planeja navegar em busca de outros sobreviventes, levando consigo apenas seus cães, os trabalhos de Shakespeare e Homero. Essa imagem final oferece um modelo para a humanidade enfrentar as catástrofes ambientais e políticas do século XXI: a reflexão sobre o passado, a aceitação da perda e a busca por novas formas de comunidade e coexistência com a vida que persiste. A obra de Shelley, bicentenária, continua a nos convidar a pensar sobre a fragilidade da civilização e a necessidade de cooperação e cuidado em um mundo em constante transformação.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Fortune