O Museu de Arte de São Paulo (MASP) anunciou que Flávia Almeida será sua nova presidente, sucedendo Heitor Martins, que esteve à frente da instituição por doze anos. A transição não é uma ruptura, mas a consolidação de um dos mais bem-sucedidos projetos de turnaround do setor cultural brasileiro.
A nomeação de Almeida, que já atuava como vice-presidente, é o resultado de um processo de sucessão estruturado ao longo de dois anos, com o auxílio das consultorias L.E.K. e Egon Zehnder. A leitura é clara: a gestão que tirou o MASP da insolvência e o transformou em uma máquina de captação e relevância cultural agora se torna um modelo de governança a ser perpetuado.
A governança como obra de arte
Para entender a sucessão, é preciso lembrar o ponto de partida. Em 2014, o grupo liderado por Heitor Martins e Alfredo Setubal assumiu um museu com dívidas de R$ 75 milhões, incapaz de pagar salários. Uma década depois, a realidade é outra: R$ 1,5 bilhão levantado em doações, uma reserva de caixa de R$ 35 milhões e um novo edifício anexo, o Pietro Maria Bardi, financiado com R$ 275 milhões captados para o projeto.
O processo de escolha da nova liderança espelha essa mentalidade de gestão. A consultoria Egon Zehnder avaliou mais de 50 perfis, internos e externos, um rigor mais comum em conselhos de administração de empresas listadas do que em instituições sem fins lucrativos. A mensagem é que a profissionalização que salvou o museu tornou-se o próprio alicerce de sua continuidade, com Martins agora assumindo a presidência do conselho para garantir a aderência ao plano.
O perfil da continuidade
Flávia Almeida personifica a tese da gestão. Com uma carreira forjada na McKinsey — onde foi a primeira mulher brasileira a se tornar sócia —, na holding da Camargo Corrêa e na Península, o family office de Abílio Diniz, ela traz o DNA do mundo corporativo. Sua experiência se soma a uma sólida atuação no campo das artes, com passagens pela Fundação Bienal e pelo Instituto Tomie Ohtake, combinando o pragmatismo da gestão com a sensibilidade cultural.
A nova estrutura de liderança reforça essa visão. Marcelo Hallack, da Prisma Capital, assume como vice-presidente do conselho, e Fabio Coelho, presidente do Google Brasil, também compõe o órgão. A composição sinaliza que, para o MASP, a sustentabilidade financeira e a governança robusta não são objetivos secundários, mas condições essenciais para a execução de sua missão artística.
O principal desafio de Almeida será conciliar esse modelo de sucesso financeiro com a ampliação do acesso. Com ingressos a R$ 85 e apenas um dia de gratuidade, a questão da acessibilidade se impõe como a grande tensão a ser administrada. O sucesso do turnaround financeiro agora precisará se traduzir em um sucesso de impacto social ainda mais amplo, equilibrando as planilhas e a vocação pública do museu.
Com reportagem de Brazil Valley
Source · Brasil Journal Tech





