Uma nova pesquisa publicada no periódico Physical Review Letters está forçando a cosmologia a revisitar uma ideia que parecia descartada. A hipótese de que a matéria escura — o componente misterioso que compõe cerca de 85% da massa do universo — seja formada por "fótons escuros" foi reabilitada, potencialmente redefinindo os rumos de uma das buscas mais importantes da física moderna.

Até agora, o consenso era que, se os fótons escuros existissem, eles teriam se convertido em fótons comuns no plasma denso e quente do universo primitivo. Esse processo liberaria uma quantidade imensa de energia, deixando uma assinatura térmica que os nossos instrumentos jamais detectaram. A ausência dessa assinatura levou os cientistas a excluírem vastas possibilidades para a existência dessas partículas. O novo estudo, baseado em simulações computacionais, argumenta que essa premissa estava fundamentalmente incorreta.

O erro na aproximação linear

A falha, segundo os pesquisadores do Perimeter Institute e da Universidade de Maryland, estava em tratar a conversão de energia como um processo linear e gradual. As simulações da equipe mostram um cenário diferente: a injeção de energia no plasma primordial seria tão intensa que geraria efeitos não-lineares caóticos. "O plasma na verdade enlouquece", explicou Junwu Huang, um dos autores.

Essas não-linearidades, ignoradas nos modelos anteriores, teriam um efeito crucial: elas desligariam o processo de conversão de energia quase que instantaneamente. O resultado é que apenas uma fração minúscula da energia dos fótons escuros teria sido transferida para o plasma, um volume insuficiente para gerar o superaquecimento que os modelos antigos previam. Na prática, isso significa que os fótons escuros poderiam ter existido sem deixar o rastro térmico que se esperava encontrar.

Reabrindo o campo de caça

A consequência imediata é uma expansão drástica do campo de busca pela matéria escura. Parâmetros que antes eram considerados impossíveis agora estão de volta à mesa. Segundo Anson Hook, outro membro da equipe, as restrições anteriores podem ter subestimado a força da interação da matéria escura por um fator de 100 milhões. É como se os astrônomos estivessem procurando em um quarto escuro, e agora descobrissem que o prédio inteiro está disponível para a busca.

O trabalho não resolve o mistério da matéria escura, mas representa um passo fundamental. Ele serve como um lembrete de que o avanço científico muitas vezes depende de revisitar e corrigir as próprias premissas que guiam a investigação. Ao refinar o cálculo do comportamento do plasma no universo primitivo, os cientistas podem agora projetar experimentos para sondar territórios antes proibidos, na esperança de, finalmente, "ver algo", nas palavras do pesquisador Mohamad Shalaby.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Space.com