Um dos principais escritórios de advocacia corporativa do país, o Mattos Filho, está se unindo à PUC-SP para lançar um curso de extensão sobre venture capital. O objetivo, segundo reportagem do portal Startups, é capacitar profissionais para as dinâmicas próprias de um setor que, apesar do amadurecimento recente, ainda opera sob a sombra de práticas importadas do mercado de fusões e aquisições (M&A) e private equity.

A iniciativa, coordenada pelos sócios Tomás Neiva e Paulo Brancher, nasce de uma constatação prática: a lógica que rege a avaliação de uma empresa estabelecida não se aplica à negociação com uma startup. O curso é um sintoma de que o ecossistema brasileiro atinge um ponto de inflexão, onde a improvisação dá lugar à necessidade de formalizar conhecimento e refinar as ferramentas de trabalho.

A tradução de dois mundos

O venture capital e o M&A tradicional habitam universos de risco e retorno fundamentalmente distintos. Enquanto o segundo se debruça sobre fluxos de caixa existentes e sinergias operacionais, o primeiro precifica o potencial futuro, lida com alta assimetria de informação e depende de estruturas contratuais que protejam o investidor sem engessar a agilidade do fundador. Aplicar a mentalidade de um ao outro, como observa Neiva, é um erro comum, fruto de um mercado que atraiu talentos de áreas adjacentes, como o direito societário e o mercado financeiro tradicional.

O lançamento de um programa educacional por uma banca do porte do Mattos Filho sinaliza que o mercado reconhece essa dissonância. Não se trata apenas de criar uma nova linha de serviço, mas de participar ativamente da construção de uma base de conhecimento institucionalizada. É o ecossistema desenvolvendo sua própria linguagem, em vez de apenas traduzir manuais estrangeiros ou adaptar contratos de outros setores.

O timing da profissionalização

O curso surge em um momento de contração do mercado, com juros altos e captações mais desafiadoras. Paradoxalmente, é nesse cenário que a sofisticação se torna mais necessária. Nos ciclos de euforia, o capital abundante pode mascarar estruturas frágeis e negociações apressadas. Em um ambiente de escassez, cada cláusula de um acordo de investimento é escrutinada com mais rigor, elevando a demanda por profissionais que dominem as nuances do setor.

A inclusão de inteligência artificial como tema transversal reforça a visão de que o curso não visa apenas codificar o passado, mas preparar para o futuro. A IA não é mais um nicho, mas uma camada tecnológica que redefine modelos de negócio, propriedade intelectual e avaliação de risco. Para o capital de risco, ignorá-la não é uma opção. A iniciativa, portanto, não é apenas acadêmica; é uma resposta pragmática às forças que moldam a nova geração de startups e os investimentos que as financiarão.

Com reportagem de Brazil Valley

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