O mercado de inteligência artificial vive um momento de inflexão, segundo a visão dos co-CIOs da Maverick Capital, Ben Silver e David Tykocinski. Após quatro anos em que os investimentos em infraestrutura e hardware ditaram o ritmo dos retornos no S&P 500, a dupla de gestores — sucessores do lendário Lee Ainslie — sugere que a fase de ganhos fáceis está próxima do fim. Em recente participação no podcast Exchanges, do Goldman Sachs, eles alertaram para a existência de um "bolsão de ar" entre a construção massiva de data centers e a entrega concreta de produtividade corporativa.
A Maverick Capital, fundada em 1993, consolidou-se como um dos "Tiger Cubs" mais respeitados de Wall Street. Desde que Silver e Tykocinski assumiram a gestão em 2021, o fundo superou pares e acumulou retornos superiores a 70% até meados de 2025. A tese atual da casa desafia a percepção de que a IA é um movimento unidirecional, sugerindo que a complexidade do cenário exige uma mudança estratégica no foco dos investimentos.
O fim da hegemonia do hardware
A tese central de Tykocinski baseia-se na inversão de um ciclo de duas décadas. Enquanto nos anos 2000 e 2010 o valor era capturado na camada de software, a IA inverteu essa lógica, concentrando lucros em GPUs e infraestrutura de energia. O gestor argumenta que o mercado já ultrapassou o ponto em que a demanda era atendida pela capacidade produtiva existente. Agora, os gargalos deslocaram-se para o nível de fabricação e insumos especializados.
Contudo, a Maverick acredita que esse fluxo voltará a oscilar para a camada de aplicação e infraestrutura de software. À medida que as empresas param de apenas construir sistemas e passam a integrar agentes de IA aos seus fluxos de trabalho, o valor retorna para a borda (edge) e para o usuário final. Esse movimento altera os pontos de estrangulamento da tecnologia, tornando bancos de dados e sistemas operacionais cruciais novamente.
A aposta em ferramentas de ciências da vida
Enquanto o capital migra freneticamente para a IA, Ben Silver identifica uma oportunidade no setor de saúde, especificamente em empresas de ferramentas de ciências da vida. O gestor descreve o setor como um local que sofreu uma "sucção" de capital, mas que agora apresenta ativos subavaliados. A tese repousa sobre a reshoring da fabricação farmacêutica nos EUA e a aceleração da descoberta de medicamentos via machine learning.
O aumento na descoberta de drogas implica, necessariamente, um crescimento na demanda por consumíveis e equipamentos de fabricação, gerando um ciclo de receita sustentado. Além disso, a consolidação do setor por grandes players capitalizados oferece um piso de proteção via M&A, tornando essas empresas alvos atrativos caso os fundamentos operacionais não se recuperem na velocidade esperada pelo mercado.
Riscos geopolíticos e estruturais
Apesar das convicções, os gestores mantêm o alerta para riscos que vão além do ruído macroeconômico comum. Tykocinski aponta a ameaça da commoditização em hardware, especialmente em áreas onde a competição chinesa é historicamente agressiva. A preocupação é que o mercado subestime a fragilidade de empresas que dependem de materiais e componentes sujeitos a uma erosão competitiva constante.
Silver, por sua vez, destaca a dificuldade do sistema político americano em tomar decisões racionais de longo prazo diante de incentivos de curto prazo. A dinâmica geopolítica entre EUA e China permanece como um fator de incerteza fundamental para toda a cadeia de suprimentos tecnológica, exigindo que gestores operem com uma vigilância constante sobre as políticas de comércio exterior.
O modelo de gestão compartilhada
A estrutura de co-CIOs adotada pela Maverick reflete a crença de que a complexidade atual exige perspectivas divergentes. Silver, com sua formação em saúde e cíclicos, e Tykocinski, focado em tecnologia, mídia e telecomunicações, operam sob a premissa de "discordar e comprometer-se". Esse modelo serve como um mecanismo de controle para evitar que uma única filosofia de investimento domine em um mercado multivariado.
O horizonte para a IA continua promissor, mas a fase de euforia cega cede espaço para uma seleção rigorosa. O mercado entra em um período onde a pesquisa fundamental e a compreensão da integração tecnológica serão os diferenciais competitivos. A questão que permanece é se o mercado conseguirá precificar a transição da infraestrutura para a produtividade sem incorrer em volatilidade excessiva. Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





