Em cozinhas comerciais nos Estados Unidos, a produção de gomas, seltzers e outros produtos com THC derivado do cânhamo está sob ameaça iminente. O que antes era um mercado em rápida expansão, impulsionado por uma brecha na legislação federal de 2018, agora luta pela sobrevivência. A lei, que legalizou o cânhamo industrial com base em seu baixo teor de THC (abaixo de 0,3% de delta-9), inadvertidamente abriu caminho para produtos com concentrações suficientes de THC para causar efeitos psicoativos, contornando as proibições estaduais sobre a maconha recreativa e a concorrência com o mercado regulamentado e mais taxado.
O Legado de McConnell e a Brecha Inesperada
O Senador Mitch McConnell, figura central na legalização do cânhamo industrial em 2018 com o objetivo de fomentar novas culturas agrícolas para os fazendeiros, agora se encontra no centro do debate sobre o fechamento dessa brecha. A definição legal de cânhamo, focada em seu uso para fibras e materiais, permitiu que empresas criassem produtos de consumo com alto teor de THC, muitas vezes disponíveis em locais de fácil acesso e sem os mesmos controles de qualidade e segurança da maconha legalizada. Essa situação gerou um mercado de US$ 28,3 bilhões, segundo estimativas, e empregou cerca de 225.000 pessoas, além de gerar bilhões em impostos estaduais. A brecha permitiu que produtos como gomas, bebidas e até flores de cannabis fossem vendidos legalmente, mesmo em estados onde a maconha recreativa não é permitida, criando uma concorrência desleal com a indústria de cannabis regulamentada.
A Luta pela Sobrevivência da Indústria
A recente votação no Congresso para fechar essa brecha, com um limite de 0,4 miligramas de THC por embalagem, ameaça dizimar o setor. Empresas como a Deutermann Farms, que produz gomas de THC, e a Cornbread Hemp, com sede em Kentucky, alertam que tal limite tornaria seus negócios insustentáveis. A indústria, em resposta, propõe restrições como a venda exclusiva para maiores de 21 anos, limites mais altos de THC por embalagem e a proibição de compostos importados. A indústria de bebidas alcoólicas, como a Total Wine & More, também apoia a indústria de cânhamo, pois as vendas de seltzers de THC têm compensado a queda nas vendas de álcool. Por outro lado, opositores, como Kevin Sabet da Smart Approaches to Marijuana, argumentam sobre os perigos desses produtos, especialmente para os jovens, e a indústria de cannabis legalizada vê o cânhamo THC como uma concorrência injusta.
Implicações para o Mercado e Reguladores
O impasse entre a indústria de cânhamo e os reguladores levanta questões complexas sobre o futuro da cannabis nos Estados Unidos. A proibição total ou a regulamentação rigorosa terão impactos econômicos significativos, afetando empregos, receitas fiscais e um mercado que, embora operando em uma área cinzenta, demonstrou demanda. A indústria legal de cannabis, que investiu pesadamente em conformidade regulatória e impostos, vê o fechamento da brecha como uma nivelamento do campo de jogo. A situação exige um equilíbrio delicado entre proteger a saúde pública, especialmente de menores, e evitar o colapso econômico de um setor que, embora controverso, gerou valor e empregos.
Perguntas em Aberto e o Caminho Adiante
Enquanto o prazo para a entrada em vigor da proibição se aproxima, a incerteza paira sobre o destino de milhares de empresas e empregos. A questão central é se o Congresso encontrará um meio-termo regulatório que permita a continuidade de parte dessa indústria, ou se a proibição total prevalecerá. A capacidade de negociação da indústria, aliada ao apoio de setores como o de bebidas alcoólicas, será crucial. A forma como os estados responderão, com possíveis regulamentações próprias ou adesão à lei federal, também definirá o cenário futuro. A experiência de empresas que investiram em um mercado de "legalidade questionável", como aponta um lobista da indústria de cannabis, serve como um lembrete dos riscos inerentes a operar em brechas regulatórias.
A luta pela sobrevivência da indústria de THC derivada do cânhamo está longe de terminar, com o futuro do mercado de US$ 28 bilhões dependendo das próximas decisões políticas e regulatórias. A forma como essa batalha se desenrolará pode definir o curso da regulamentação da cannabis nos Estados Unidos por muitos anos. Com reportagem de Brazil Valley
Source · Fortune





