A recente onda de grandes aberturas de capital no mercado americano, protagonizada por gigantes como SpaceX, Anthropic e OpenAI, tem levantado questionamentos sobre a capacidade de Wall Street em absorver tamanha demanda por liquidez. Contudo, para Alex Fusté, economista-chefe global e diretor de investimentos do Andbank, o movimento não representa um risco iminente de drenagem de recursos ou de uma correção abrupta nos índices acionários.

Segundo reportagem do InfoMoney, Fusté defende que o apetite dos investidores é um reflexo direto de um ambiente econômico favorável e não de uma euforia desmedida. Em sua análise, o volume total projetado para essas ofertas é significativamente inferior à liquidez que as empresas listadas injetaram no mercado em 2025, através de dividendos e recompras de ações, o que garante estabilidade ao ecossistema financeiro atual.

A falácia da comparação com a bolha de 2000

Um dos pontos centrais do argumento de Fusté é a distinção técnica entre o cenário atual e o estouro da bolha da internet no início dos anos 2000. O economista aponta que, na virada do milênio, o acúmulo de IPOs representou cerca de 3% da capitalização total do mercado em um período de quatro anos. Hoje, a soma das grandes ofertas previstas para o setor de inteligência artificial alcança apenas 0,4% do S&P 500 no mesmo intervalo temporal.

Essa métrica serve para tranquilizar investidores que temem um esgotamento dos recursos disponíveis. A leitura aqui é que, embora as cifras individuais de empresas como SpaceX ou OpenAI sejam expressivas, o mercado global cresceu de forma a absorver esses valores sem gerar desequilíbrios. A estabilidade dos fundamentos de lucro das empresas listadas hoje, comparada à fragilidade das companhias da era pontocom, reforça a tese de que o mercado está amparado por resultados concretos.

O ecossistema da IA como motor de produtividade

Diferente de ciclos tecnológicos anteriores, Fusté identifica na inteligência artificial uma mudança não linear, caracterizada pela compressão do progresso. Enquanto inovações passadas, como a digitalização ou a nuvem, promoveram ganhos de eficiência incrementais, a IA atua diretamente sobre a capacidade de raciocínio e inteligência, gerando ganhos de produtividade que se traduzem em monetização acelerada para as empresas do setor.

O ecossistema é descrito como um "pastel de cinco capas", onde a dependência é diluída entre diversos participantes. Desde provedores de energia e fabricantes de chips até desenvolvedores de modelos fundacionais e empresas de software, a cadeia de valor está bem distribuída. Esse arranjo reduz o risco sistêmico, pois a falha de um único player não teria o poder de interromper a escalada de todo o ciclo de desenvolvimento tecnológico.

Riscos e o papel do Federal Reserve

As implicações futuras para o mercado dependem, fundamentalmente, da continuidade do ciclo de investimento. O maior risco identificado não é a escassez de liquidez, mas a possibilidade de interrupção dos gastos de capital (CAPEX) pelas gigantes de tecnologia. Se o custo de capital disparar — motivado por uma inflação descontrolada ou uma crise econômica —, o ímpeto de investimento em IA poderia ser contido, afetando o desempenho das ações de crescimento.

No entanto, a atuação do Federal Reserve permanece como a variável mais crítica. Fusté observa que os ciclos de mercado não terminam por exaustão natural, mas são interrompidos por decisões de política monetária. A expectativa de que o Fed mantenha uma postura menos agressiva na subida de juros, pautada por uma economia que cresce de forma compatível com seu potencial, é o que sustenta a visão de que o rali atual tem fôlego para perdurar.

A normalização do mercado de energia

O outlook para os próximos meses também passa pela estabilização dos preços de energia. A visão do economista é de que o mercado antecipa movimentos (front running) antes mesmo da normalização física dos fluxos, especialmente com o aumento da capacidade de exportação de gás natural dos Estados Unidos. Esse cenário de maior independência energética global contribui para reduzir a pressão inflacionária.

O que permanece incerto é a velocidade com que essa normalização impactará os custos operacionais das empresas de tecnologia. O mercado continuará monitorando se os resultados trimestrais das companhias de IA entregarão o lastro esperado pelos investidores. A cautela, manifestada através de indicadores como o put-call ratio, é interpretada por Fusté como um fator saudável que previne a formação de bolhas especulativas.

O cenário desenhado sugere que, enquanto a inteligência artificial continuar a gerar ganhos reais de produtividade e o custo de capital permanecer controlado, a tendência de alta deve persistir. Resta aos investidores observar se a escala do CAPEX se confirmará nos próximos anos conforme as projeções dos líderes do setor.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · InfoMoney