Em Riviera, Mélanie Masarin faz da mesa um lugar de memória. A fundadora da Ghia — marca de aperitivos sem álcool que ajudou a redefinir o ritual do happy hour — organiza receitas e rituais de hospitalidade que funcionam como cápsulas de tempo: menos sobre medidas exatas, mais sobre atmosfera, luz e conversas sem pressa. O livro se apresenta como um guia de culinária e, ao mesmo tempo, como uma proposta estética, alinhada ao universo que a empreendedora já construiu no mercado de bebidas.
A transição de uma marca de aperitivos para a curadoria de um estilo de vida editorial é um movimento que, embora pareça orgânico, revela uma estratégia sofisticada. Ao transformar o ethos da Ghia — o prazer do encontro, a sobriedade sofisticada e o design minimalista — em um volume físico, Masarin solidifica sua autoridade em um nicho onde o lifestyle vale tanto quanto o produto. O livro opera como extensão da marca: oferece não só uma bebida para o brinde, mas o contexto cultural que a cerca. É um caso de como o branding contemporâneo transcende a prateleira e ocupa a mesa posta — e a memória afetiva.
A arquitetura da nostalgia e o design do cotidiano
O conceito de Riviera parte do desejo de traduzir lembranças em matéria. A culinária mediterrânea, para Masarin, é retorno às raízes: hospitalidade como regra, ingredientes frescos — figo, azeite, limão — elevados à condição de luxo pelo tempo e pela simplicidade. Não é uma cozinha de ostentação, mas de matéria-prima tratada com paciência.
A mesma lógica informa o DNA da Ghia, que desafia o mercado ao propor que o prazer de beber independe do teor alcoólico e se apoia na complexidade de sabor e na experiência social. Levando essa filosofia ao formato livro, a autora reafirma que a curadoria de uma vida bem vivida é também um ato de design. Em Riviera, a fotografia, a textura dos tecidos e a disposição dos pratos compõem uma narrativa visual coesa — estética a serviço de conexão emocional em um mundo cada vez mais digital.
O mecanismo da hospitalidade como negócio
Marcas lideradas por fundadores que se tornam ícones de estilo prosperam quando vendem um desejo, não apenas uma mercadoria. Ao compartilhar receitas e rituais, Masarin oferece ao leitor a possibilidade de recriar, em casa, a sensação de um verão mediterrâneo. O produto vira coadjuvante de uma experiência maior que o consumidor quer emular. Um livro que funciona como manual de hospitalidade transforma clientes em embaixadores do estilo de vida, reforçando lealdade por meio da prática cotidiana.
Esse entrelaçamento de produto e conteúdo editorial exemplifica a evolução do marketing de influência. Não basta posar com uma garrafa; é preciso criar um universo cultural no qual a marca seja o eixo de um ritual. Com Riviera, o valor agregado — conhecimento, repertório, inspiração — sustenta a relevância da marca num mercado saturado. É a passagem do “vendo um produto” para “compartilho uma visão de mundo”, ambição comum a muitas startups de consumo, raramente executada com tanta coesão.
Implicações para o ecossistema de marcas lifestyle
Para investidores e fundadores de bens de consumo, o movimento de Masarin ilustra como o valor de marca se acumula no longo prazo. Empresas capazes de construir um ecossistema ao redor de si mesmas são mais resilientes às flutuações do que aquelas que dependem apenas da função do produto. Criar conteúdo — em livros, podcasts, newsletters — que ressoe com o estilo de vida do público é um ativo intangível que pode se converter em margens maiores e menor CAC.
Há, porém, desafios. Manter uma estética específica exige curadoria constante e traz o risco de nichar demais, restrita a um público que aspira a certo padrão de vida. No Brasil, onde a hospitalidade é diversa e vibrante, a lição de Riviera pode inspirar marcas a valorizar ingredientes locais e tradições regionais, elevando o cotidiano brasileiro ao patamar de sofisticação global — sem permitir que a forma se sobreponha à substância. No fim, a qualidade do que se entrega — da bebida no copo à receita no papel — precisa permanecer impecável.
Depois da última página
Ao fechar Riviera, fica a pergunta sobre até onde a curadoria de estilo consegue levar uma marca antes que o consumidor deseje algo mais cru, menos editado. A busca por autenticidade é uma maré que não cessa, e o mercado de lifestyle terá de equilibrar constantemente aspiração e realidade. O desempenho do livro dirá muito sobre o apetite do consumidor contemporâneo por narrativas que, embora escapistas, se ancoram no prazer sensorial e no convívio.
Se a mesa seguirá no centro das nossas interações, ou se buscaremos novos formatos de conexão, os próximos verões responderão. Por ora, o convite está feito — e a Riviera de Masarin é menos um lugar e mais um estado de espírito.
Com reportagem de Vogue
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