A School of Visual Arts (SVA) de Nova York, uma das mais respeitadas instituições de ensino de arte do mundo, está enfrentando uma crise sem precedentes. As matrículas caíram 34% desde 2019 e a escola encara um déficit orçamentário estrutural de US$ 22 milhões, o maior em seus quase 80 anos de história. A informação, divulgada em um e-mail interno pelo presidente interino Christopher J. Cyphers, foi reportada pelo portal ARTnews.

O caso da SVA não é um ponto fora da curva, mas o sintoma agudo de uma “tempestade perfeita” que atinge o ensino superior americano, especialmente as faculdades de artes. A crise combina um “penhasco demográfico” — a queda no número de jovens em idade universitária —, um ambiente político hostil às artes e à imigração, e uma crescente pressão sobre os modelos de financiamento que sustentam essas instituições, altamente dependentes das mensalidades.

A tempestade perfeita

A crise da SVA é multifatorial. O primeiro fator é demográfico: a queda na taxa de natalidade nos Estados Unidos após a recessão de 2008 resultou em menos alunos buscando o ensino superior hoje. O segundo é político. A gestão interina da escola cita o “desmantelamento da educação e das artes pelo governo federal” e as restrições à imigração, que afetam diretamente os estudantes internacionais — um grupo que já representou metade do corpo discente da SVA.

Internamente, a escola também passou por turbulências que refletem a pressão financeira, incluindo a recente transição de uma entidade com fins lucrativos, controlada pela família fundadora, para uma organização sem fins lucrativos. A instituição também viu sua força docente se sindicalizar e anunciou o fechamento de três programas de pós-graduação, citando “desafios financeiros”.

Um setor em xeque

O cenário se repete em todo o país, indicando uma falha sistêmica no modelo de negócio das escolas de arte. Segundo a Associação de Faculdades Independentes de Arte e Design (AICAD), dois terços de suas quase 40 escolas membros viram as matrículas diminuírem. Algumas não sobreviveram: a University of the Arts, na Filadélfia, fechou abruptamente em 2024, e a California College of the Arts encerrará as atividades em 2027. Outras, como o San Francisco Art Institute, foram adquiridas para não desaparecerem.

O aperto financeiro foi agravado por problemas burocráticos, como uma falha massiva no portal federal de auxílio estudantil (FAFSA) em 2024, e por mudanças legislativas que limitaram o acesso a empréstimos para graduação e pós-graduação. Para instituições como a SVA, onde a anuidade se aproxima de US$ 55 mil, cada aluno a menos e cada dólar de auxílio cortado têm um impacto direto e profundo na operação.

A combinação de custos elevados, menor base de alunos e um ecossistema de financiamento mais restrito coloca em dúvida não apenas a sobrevivência de escolas individuais, mas a própria sustentabilidade do ensino de elite nas artes. A questão que fica não é apenas como a SVA irá navegar esta crise, mas qual será o futuro de um setor que depende de um modelo cada vez mais frágil.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews