O mercado global de fusões e aquisições (M&A) caminha para um fechamento robusto em 2026, com projeções indicando um volume total de 3,5 trilhões de euros — aproximadamente quatro trilhões de dólares. Segundo o relatório 'Global M&A Trends Mid Year Review 2026', elaborado pela PwC, o setor deve registrar um crescimento de 13% em relação ao ano anterior, totalizando cerca de 42 mil operações e atingindo o patamar mais elevado desde 2021.

Este cenário de recuperação é sustentado predominantemente por operações de grande escala, conhecidas como 'megadeals'. A tese central é que, embora o volume total de transações apresente resiliência, a concentração de capital em poucos e vultosos negócios tornou-se a engrenagem principal que sustenta o valor global do mercado, compensando a estagnação em segmentos de menor porte.

A predominância das megafusões

As operações avaliadas acima de 5 bilhões de dólares já representam quase metade do valor total do mercado de M&A. O peso dessas transações dobrou em apenas dois anos, passando de 26% em 2024 para os atuais patamares. A análise da PwC sugere que o mercado seria significativamente menor sem esse movimento, com uma queda estimada de 4% no valor total caso essas grandes movimentações fossem excluídas da conta.

Geograficamente, a disparidade é notável. As Américas, lideradas pelos Estados Unidos, concentram 61% do valor global das operações, apesar de representarem apenas 28% do volume total de transações. Esse fenômeno reflete uma estratégia de consolidação em setores críticos, onde grandes corporações utilizam seu poder de caixa para adquirir ativos de infraestrutura essencial, mesmo diante de um cenário de menor frequência de acordos.

O papel da infraestrutura de IA

A inteligência artificial emergiu como o principal catalisador para a alocação de capital. A necessidade de sustentar a infraestrutura física da IA — que engloba desde centros de dados e sistemas de refrigeração até a geração de energia e conectividade — está forçando uma reorientação dos investimentos globais. O capital está migrando para ativos que garantam a viabilidade operacional das novas tecnologias, tornando-se uma prioridade estratégica para compradores.

Em contraste, o chamado 'mid-market' enfrenta desafios estruturais. Investidores de médio porte relatam dificuldades operacionais causadas pela incerteza geopolítica, disparidades entre as expectativas de preço de compradores e vendedores, além da persistência de taxas de juros elevadas. A paralisação nas desinversões de empresas de capital de risco também atua como um freio para a liquidez desse segmento específico.

Tensões e equilíbrios regionais

Enquanto as Américas dominam o valor, outras regiões apresentam dinâmicas distintas. A zona EMEA (Europa, Oriente Médio e África) tem visto um aumento no valor total através de grandes operações, mantendo o volume de negócios estável. Por outro lado, a região da Ásia-Pacífico registrou um crescimento no volume de transações, impulsionado por China e Japão, mas observou uma queda no valor total, sugerindo uma atividade mais fragmentada e baseada em ativos menores.

Para o restante de 2026, o foco dos players do mercado deve permanecer no fortalecimento das cadeias de suprimentos e na segurança de capacidades produtivas. A busca por financiamento para projetos de energia, defesa e infraestrutura crítica deve ditar o ritmo das negociações, à medida que empresas tentam blindar suas operações contra futuras instabilidades macroeconômicas.

Perspectivas para o segundo semestre

O cenário permanece condicionado à evolução das variáveis macroeconômicas, especialmente a inflação e a política de juros das principais economias. A capacidade dos gestores em navegar essas incertezas determinará se o otimismo do primeiro semestre se traduzirá em um fechamento de ano recorde ou se o mercado enfrentará novas correções.

O movimento de consolidação em torno de infraestruturas estratégicas indica uma mudança estrutural na forma como o capital é alocado. Resta saber se o apetite por essas 'megafusões' será sustentável a longo prazo ou se a escassez de ativos de alta qualidade forçará uma mudança de rota para mercados emergentes ou setores menos capital-intensivos nos próximos trimestres.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · Forbes España