O Metropolitan Museum of Art (Met) formalizou a repatriação de duas esculturas de arenito ao governo do Camboja, marcando um novo capítulo na revisão ética de seu acervo. As peças, que incluem uma divindade guardiã do período Angkor e um lintel do século VII, foram transferidas após uma investigação conduzida pelo escritório do promotor distrital de Manhattan, Alvin Bragg. A ação faz parte de um esforço contínuo para rastrear e devolver bens culturais traficados.

O caso está diretamente ligado às investigações sobre Doris Wiener, uma negociante de arte de Nova York, e sua filha, Nancy Wiener, que confessou envolvimento em tráfico de antiguidades. A peça da divindade, em particular, foi identificada como parte do saque sistemático ocorrido no templo Prasat Chen, em Koh Ker, durante a década de 1970. A devolução não é um evento isolado, mas reflete uma mudança estrutural na forma como grandes museus lidam com a procedência de suas coleções.

O impacto da fiscalização de Manhattan

A atuação da Unidade de Tráfico de Antiguidades do promotor Alvin Bragg transformou o cenário da arte em Nova York. Com mais de 6.350 itens recuperados, avaliados em 490 milhões de dólares, o escritório tornou-se um dos principais vetores de pressão sobre instituições que, por décadas, mantiveram peças de origem duvidosa. A estratégia de investigar negociantes históricos, como Douglas Latchford e a família Wiener, expõe as falhas nos protocolos de aquisição de décadas anteriores.

Para o Met, a estratégia de cooperação voluntária e ativa é uma tentativa de mitigar danos reputacionais. O museu, que já havia retornado 14 esculturas em 2023, busca agora se posicionar como um parceiro na preservação do patrimônio global, em vez de um repositório passivo de itens saqueados. A mudança de tom é evidente na fala de Max Hollein, CEO do Met, que enfatizou a expansão das pesquisas de procedência como uma prioridade institucional.

Mecanismos de governança e ética

A dinâmica entre o mercado de arte e a justiça revela a fragilidade dos controles internos dos museus. Durante anos, a lacuna entre a aquisição e a verificação histórica permitiu que itens contrabandeados fossem integrados a coleções de prestígio. O caso das esculturas Khmer demonstra como a pressão legal pode forçar a revisão de políticas que, antes, eram tratadas apenas como diretrizes internas de curadoria.

O processo de repatriação envolve não apenas a logística de transporte, mas a reconfiguração de relações diplomáticas entre museus e países de origem. Ao devolver voluntariamente peças, o Met tenta manter a relevância cultural e o acesso a exposições internacionais, garantindo que o diálogo com o Camboja permaneça aberto, apesar das tensões históricas sobre a propriedade das obras.

Implicações para o mercado global

A tendência de repatriação coloca em xeque a longevidade das coleções privadas e públicas que dependem de antiquidades sem documentação clara. Para colecionadores e investidores em arte, o risco de confisco e a perda de valor de ativos culturais aumentaram drasticamente. O mercado de antiguidades está sendo forçado a adotar padrões de transparência que antes eram negligenciados, sob o risco de enfrentar sanções criminais.

Para o ecossistema brasileiro, que também lida com desafios de proteção ao patrimônio arqueológico e histórico, o exemplo de Nova York serve como um modelo de como a colaboração entre o setor jurídico e instituições culturais pode ser eficaz. A pressão pela restituição não é apenas um imperativo moral, mas uma necessidade de conformidade regulatória que redefine o valor de mercado das obras.

O futuro das coleções expostas

O que permanece incerto é a extensão da revisão que o Met e outras instituições globais realizarão em suas reservas técnicas. A questão fundamental é se a proatividade na investigação será suficiente para evitar novas sanções judiciais ou se a pressão pública continuará a ditar o ritmo das devoluções. A transparência curatorial tornou-se a nova métrica de sucesso para museus de grande porte.

Observar as próximas ações do escritório de Manhattan e a resposta de outros museus americanos será essencial para entender o nível de exposição dessas instituições. A era da posse inquestionável parece ter chegado ao fim, dando lugar a um cenário onde a legitimidade da propriedade é testada continuamente.

Com reportagem de Brazil Valley

Source · ARTnews